O grito proferido às margens do Ipiranga em 7 de setembro de 1822 prometia uma nação dona do próprio destino.
A espada erguida por Dom Pedro I simbolizava o rompimento com a dependência metropolitana e o nascimento da soberania nacional.
Mais de dois séculos depois, no entanto, aquele gesto heroico contrasta dolorosamente com a realidade de um país que se desfez por dentro.
A independência libertou o território do domínio estrangeiro, mas falhou em construir uma república verdadeiramente livre, justa e próspera.
A tragédia do Brasil contemporâneo reside na dilapidação sistemática do seu projeto de nação.
A soberania formal hoje convive com vulnerabilidades estruturais profundas:
- Aparelhamento e Corrupção: A estrutura estatal transformou-se, em diversos níveis, em um balcão de interesses privados, onde o recurso público é desviado do bem comum para a perpetuação de oligarquias, privilégios e compadrio com escândalos financeiros praticados por “ empresários” desonestos.
- Avanço do Crime Organizado: Territórios inteiros e setores estratégicos da economia foram sequestrados pelo poder paralelo, que desafia a autoridade do Estado e impõe o medo à população civil.
- Desgaste e Incompetência Institucional: Relações administrativas ineficientes, somadas à baixa capacidade de gestão e ao patrimonialismo histórico, impedem o desenvolvimento de infraestrutura básica, educação e saúde de qualidade.
- Vulgarização da Alta Jurisdição: As Instâncias Superiores do Judiciário, que deveriam atuar como fiadoras da estabilidade constitucional, sofrem com a partidarização de debates, insegurança jurídica e a erosão de sua credibilidade perante a sociedade.
- Dependência Social Ampliada: A ausência de políticas duradouras de autonomia econômica reduziu milhões de cidadãos à dependência contínua de auxílios estatais de subsistência, fragilizando a emancipação individual.
- Abono e Perda de Relevância Internacional: Uma diplomacia por vezes errática e desconectada de interesses estratégicos globais enfraqueceu a voz do país nos fóruns multilaterais e minou sua reputação perante a comunidade internacional.
Celebrar a data da independência exige mais do que patriotismo retórico; exige uma postura crítica e altiva.
O 7 de setembro não pode ser apenas a memória de um ato solene no passado, mas um lembrete incômodo do compromisso pendente com o futuro: o de refundar as bases éticas, sociais,culturais,jurídicas e políticas que garantam a verdadeira soberania e dignidade ao povo brasileiro.
(Recanto da Ana e do Erner 07.09.2022- Capão Novo\)

















