A costa do Rio Grande do Sul pode esconder uma das maiores novas fronteiras de petróleo e, principalmente, gás natural do Brasil. Pela primeira vez, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apresentou uma estimativa volumétrica para a Bacia de Pelotas: são 17,9 bilhões de barris de óleo equivalente em recursos não descobertos no subsolo, dos quais aproximadamente 9,7 bilhões poderiam ser recuperáveis.
O número chama atenção, mas exige uma distinção fundamental: não significa que o Rio Grande do Sul tenha descoberto uma reserva de 9,7 bilhões de barris. A própria EPE classifica o levantamento como preliminar e afirma que existe elevado grau de incerteza, compatível com uma região ainda pouco explorada.
Dentro da estimativa de recursos recuperáveis aparecem aproximadamente 3,4 bilhões de barris de petróleo e mais de 1 trilhão de metros cúbicos de gás natural.
É justamente o volume projetado de gás que começa a colocar a Bacia de Pelotas no debate sobre uma possível nova fronteira energética brasileira.
O que a EPE encontrou na Bacia de Pelotas
O estudo “Estimativa Volumétrica da Bacia Pelotas” foi divulgado pela EPE no fim de setembro, após apresentação durante a ROG.e 2026, realizada no Rio de Janeiro.
O levantamento avaliou o potencial de recursos ainda não descobertos a partir das informações geológicas e geofísicas disponíveis.
Para chegar às estimativas, foram revisados dados dos nove poços exploratórios perfurados anteriormente na parte marítima da bacia e interpretadas milhares de linhas de sísmica 2D.
A análise identificou dezenas de estruturas consideradas de interesse exploratório, tanto dentro dos blocos atualmente concedidos quanto fora dessas áreas.
Os principais números apresentados são:
- 17,9 bilhões de barris de óleo equivalente estimados como recursos in place;
- 9,7 bilhões de barris de óleo equivalente potencialmente recuperáveis;
- aproximadamente 3,4 bilhões de barris de petróleo recuperáveis;
- mais de 1 trilhão de metros cúbicos de gás natural recuperável.
Mas isso significa que existe todo esse petróleo e gás?
Ainda não.
Essa é a principal ressalva necessária para compreender o anúncio.
Os números representam uma estimativa técnica de recursos não descobertos. Não são reservas comprovadas e tampouco significam que todo esse volume será encontrado ou produzido comercialmente.
A própria EPE afirma que os resultados possuem elevado grau de incerteza e devem ser interpretados como uma indicação da ordem de grandeza do potencial exploratório da região.
As estimativas poderão mudar à medida que novas pesquisas, levantamentos sísmicos e, principalmente, perfurações forneçam informações sobre o que efetivamente existe abaixo do fundo do mar.
Não há perfuração exploratória desde 2001
Outro dado ajuda a dimensionar quanto ainda falta conhecer sobre a região: o último poço exploratório da Bacia de Pelotas foi perfurado em 2001.
Ou seja, passaram-se cerca de 25 anos sem uma nova perfuração exploratória na bacia.
Isso ajuda a explicar por que, apesar dos números expressivos apresentados agora, ainda não existe produção comercial de petróleo ou gás associada à Bacia de Pelotas.
47 blocos estão sob concessão
O interesse empresarial pela região, entretanto, aumentou nos últimos anos.
Atualmente, 47 blocos exploratórios da Bacia de Pelotas estão sob contratos de concessão. Desse total, 15 têm a Chevron como operadora e 32 têm a Petrobras como operadora.
A existência de concessões também não significa que haverá automaticamente produção. Antes disso, existe uma longa cadeia de estudos, aquisição de dados, licenciamento ambiental, perfuração exploratória e avaliação da viabilidade econômica de eventuais descobertas.
Por que a Namíbia aumentou o interesse pela costa do RS
Uma das razões para a atenção sobre a Bacia de Pelotas está do outro lado do Oceano Atlântico.
Descobertas recentes em águas profundas da Namíbia aumentaram o interesse sobre áreas da margem brasileira que possuem analogias geológicas com bacias da costa africana.
Isso ocorre porque América do Sul e África estiveram unidas no passado geológico. A abertura do Atlântico separou estruturas sedimentares que hoje estão distribuídas pelos dois lados do oceano.
A comparação, porém, não significa que uma descoberta africana será necessariamente reproduzida no Brasil. Ela funciona como informação geológica adicional para orientar a exploração.
Bacia de Pelotas alcança o litoral gaúcho

Apesar do nome, a Bacia de Pelotas não está restrita ao município de Pelotas ou ao Sul do Estado.
A bacia sedimentar se estende pela margem continental desde a região próxima ao Uruguai até Santa Catarina, abrangendo a costa do Rio Grande do Sul.
Isso significa que o debate sobre seu eventual desenvolvimento tem dimensão estadual e envolve também o litoral gaúcho.
Gás pode ser o grande diferencial para o Rio Grande do Sul
Embora o petróleo tenha grande impacto econômico potencial, é o gás natural que torna o novo estudo especialmente relevante para o Rio Grande do Sul.
O Estado está distante dos principais polos brasileiros produtores de gás e depende de infraestrutura de transporte e importação para abastecer o mercado.
O gás natural é utilizado por diferentes segmentos industriais e sua disponibilidade, infraestrutura e preço podem influenciar decisões de investimento.
Por isso, uma eventual descoberta comercial na Bacia de Pelotas poderia alterar significativamente a configuração energética do Estado.
Isso, porém, dependeria não apenas da descoberta do recurso, mas também da viabilidade de produção e da construção da infraestrutura necessária para transportar o gás do mar até os centros consumidores.
Rio Grande poderia assumir papel estratégico
Se futuras descobertas confirmarem volumes comercialmente exploráveis, o desenvolvimento de uma indústria offshore exigiria uma cadeia muito maior do que apenas plataformas em alto-mar.
Portos, embarcações de apoio, bases logísticas, serviços especializados, manutenção, engenharia, transporte e infraestrutura de gás poderiam fazer parte dos investimentos associados ao projeto.
Nesse cenário, a região de Rio Grande aparece naturalmente no debate por sua estrutura portuária e localização no Sul do Estado.
Os efeitos econômicos, entretanto, dependeriam do desenho dos projetos que eventualmente fossem desenvolvidos.
Royalties poderiam movimentar bilhões
Outro impacto potencial está nos royalties pagos pela produção de petróleo e gás.
O secretário-geral do governo gaúcho, Artur Lemos, afirmou que, em um cenário no qual 30% do potencial estimado fosse confirmado para extração, o Estado poderia receber cerca de R$ 3 bilhões anuais em royalties, considerando valores atuais.
Segundo ele, os municípios poderiam receber, conjuntamente, valor superior a esse montante.
Trata-se, entretanto, de uma projeção baseada em um cenário hipotético, e não de uma receita prevista ou garantida. Não existe atualmente produção comercial na Bacia de Pelotas que gere esses valores.
Do potencial à produção existe um longo caminho
Mesmo que futuras perfurações confirmem petróleo e gás, uma eventual produção comercial não começaria imediatamente.
O desenvolvimento de uma nova fronteira offshore envolve diferentes etapas:
- levantamentos geológicos e sísmicos;
- licenciamento ambiental;
- perfuração de poços exploratórios;
- confirmação ou não de descobertas;
- avaliação do tamanho e da qualidade dos recursos encontrados;
- análise de viabilidade econômica;
- desenvolvimento dos campos e construção da infraestrutura;
- início da produção comercial.
Algumas dessas etapas podem levar anos.
Questão ambiental também estará no centro do debate
O avanço da exploração dependerá ainda dos processos de licenciamento ambiental aplicáveis às atividades marítimas.
A região possui áreas ambientalmente sensíveis e qualquer projeto de exploração ou produção precisa passar pelas avaliações e autorizações previstas na legislação.
Documentos técnicos do Ministério do Meio Ambiente já analisaram sensibilidades ambientais relacionadas aos blocos da Bacia de Pelotas, incluindo áreas prioritárias para conservação da biodiversidade.
Assim, uma eventual expansão da atividade deverá envolver não apenas discussões econômicas e energéticas, mas também avaliações sobre os impactos ambientais e as medidas necessárias para prevenção e mitigação de riscos.
Nova fronteira de petróleo e gás? A resposta ainda depende da perfuração
Os números apresentados pela EPE mudam a dimensão do debate sobre a Bacia de Pelotas, principalmente pela primeira estimativa volumétrica abrangente para a região.
Mas a diferença entre potencial geológico e uma grande província produtora continua sendo enorme.
Hoje, o que existe é uma estimativa de recursos não descobertos, 47 blocos sob concessão e um interesse crescente das empresas em compreender melhor o subsolo da margem Sul brasileira.
A confirmação somente poderá avançar com novas etapas exploratórias e, especialmente, com a perfuração de poços.
Se parte relevante dos volumes estimados for efetivamente descoberta e se mostrar comercialmente viável, entretanto, a Bacia de Pelotas poderá representar uma transformação de longo prazo para o setor energético e para a economia do Rio Grande do Sul.

















