Botos da Barra serão homenageados em Tramandaí após reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil
Tramandaí recebe neste sábado (15), às 9h, uma atividade gratuita dedicada aos botos da Barra e à relação histórica mantida com os pescadores artesanais da região.
Promovido pelo Sesc Tramandaí, o passeio “Homenagem a um Patrimônio Vivo: Os Caminhos dos Botos da Barra” será realizado na Praça dos Botos, na Barra de Tramandaí, e vai abordar aspectos históricos, científicos, ambientais e culturais da pesca cooperativa.
A programação ocorre às vésperas do Dia do Patrimônio Cultural, celebrado em 17 de agosto, e ganha uma dimensão ainda maior em 2026: em março, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu a Pesca com Botos no Sul do Brasil como Patrimônio Cultural do Brasil e registrou a prática no Livro dos Saberes.
Por que os botos da Barra são considerados patrimônio cultural?
O patrimônio reconhecido não é apenas o animal. O que passou a integrar oficialmente o patrimônio cultural brasileiro é o conhecimento tradicional relacionado à pesca cooperativa entre pescadores artesanais e botos, uma prática transmitida entre gerações e diretamente ligada à identidade das comunidades que vivem no entorno dos estuários.
Na Barra de Tramandaí, os pescadores observam o comportamento dos botos e identificam quando os animais estão conduzindo cardumes de peixes, especialmente tainhas, em direção ao local onde estão posicionados.
O momento adequado para lançar a tarrafa depende da leitura feita pelos pescadores a partir dos movimentos dos animais.
É um conhecimento que envolve muito mais do que saber lançar uma rede. O próprio Iphan aponta que a prática exige familiaridade com ventos, marés, comportamento dos peixes, comportamento dos botos e características geográficas do estuário.
Por isso, o reconhecimento nacional considera a pesca com botos um saber-fazer tradicional, e não simplesmente uma técnica de captura de pescado.
Como funciona a pesca cooperativa entre botos e pescadores?
Durante a pesca, os botos direcionam os cardumes para áreas onde os pescadores conseguem lançar suas tarrafas. Quando o animal dá o sinal característico, o pescador interpreta aquele comportamento e arremessa a rede.
A interação também beneficia os botos, que podem capturar peixes que escapam das redes. O resultado é uma relação de cooperação construída ao longo de muitas gerações.
O fenômeno é particularmente raro. O Iphan identificou quatro sistemas estuarinos entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina onde a prática é documentada: a foz do Rio Tramandaí, o Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, o estuário do Rio Mampituba e o Rio Araranguá. A Barra de Tramandaí e a região de Laguna são os locais de maior frequência da interação.
O que mudou com o reconhecimento do Iphan?
O reconhecimento ocorreu em 11 de março de 2026, durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância deliberativa máxima do Iphan. A prática foi inscrita no Livro dos Saberes, categoria destinada a conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades.
Na prática, o registro não significa que a pesca passe a ser apenas uma atração turística. O objetivo é reconhecer e contribuir para a salvaguarda de um conhecimento tradicional e das comunidades que o mantêm vivo.
O processo também chama atenção para a necessidade de preservar o ambiente onde essa relação acontece. Sem estuário, peixes, qualidade ambiental e presença dos botos, não existe a interação cultural que está sendo protegida.
Uma tradição que também depende da conservação dos botos
O reconhecimento cultural ocorre ao mesmo tempo em que a conservação da espécie enfrenta desafios. Segundo o Iphan, os botos-de-Lahille, envolvidos na pesca cooperativa, foram reclassificados em 2025 pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) de vulneráveis para em perigo de extinção.
O Instituto cita uma estimativa de aproximadamente 330 indivíduos em todo o mundo, com a maior parte da população concentrada no litoral sul do Brasil.
Isso torna a Barra de Tramandaí especialmente relevante: a preservação da cultura está diretamente ligada à preservação do território e da fauna que sustenta essa relação.
O próprio Projeto Botos da Barra, ligado ao Ceclimar/UFRGS, atua desde 2012 com ações de conservação, educação ambiental, valorização da pesca artesanal e apoio à gestão pública.
Por que a atividade do Sesc acontece na Praça dos Botos?
A escolha do local não é casual. A Praça dos Botos fica junto à Barra de Tramandaí, justamente em uma das áreas mais associadas à pesca cooperativa entre pescadores artesanais e os animais.
A atividade proposta pelo Sesc pretende transformar esse espaço em ponto de encontro entre memória, ciência e cultura. A mediação será feita pelo professor Ignacio Benites Moreno, doutor em Biociências e Zoologia e pesquisador dedicado à relação entre seres humanos e fauna marinha.
O que será feito no sábado em Tramandaí?
A atividade “Homenagem a um Patrimônio Vivo: Os Caminhos dos Botos da Barra” será gratuita e aberta ao público. A programação terá abordagem histórica, científica, cultural e ambiental sobre a relação entre os pescadores e os botos.
- Data: sábado, 15 de agosto de 2026
- Horário: 9h
- Local: Praça dos Botos, Barra de Tramandaí
- Atividade: Homenagem a um Patrimônio Vivo: Os Caminhos dos Botos da Barra
- Entrada: gratuita
- Inscrições e informações: (51) 3684-3736
















