Carroceiro e vendedora de melancias
O uso de laranjas em fraudes de licitações públicas voltou a expor um esquema milionário no Rio Grande do Sul.
A Polícia Civil concluiu a Operação Laranjal 2, que resultou no indiciamento de sete pessoas acusadas de ocultar a verdadeira identidade de empresários em contratos que somaram R$ 60 milhões com secretarias estaduais.
Os mandados de busca e apreensão e dois mandados de prisão preventiva na ocasião ocorreram em Porto Alegre, Mostardas, no Litoral Gaúcho e Butiá.
Entre os supostos donos das empresas estavam pessoas comuns, como uma doméstica aposentada, uma vendedora de melancias e até um carroceiro, todos usados para mascarar a atuação de empresários já investigados em outras operações.
Empresários presos e esquema repetido
De acordo com a investigação, os dois principais articuladores do esquema são empresários que já estavam presos desde o início da operação, em 1º de setembro.
Eles teriam repetido o mesmo modus operandi de fraudes anteriores, como a Operação Camilo, da Polícia Federal, e a primeira fase da Laranjal, conduzida pelo Ministério Público Estadual.
As empresas eram abertas em nome de pessoas sem histórico empresarial, de baixa renda e baixa escolaridade, mas que aceitavam emprestar o nome em troca de vantagens financeiras.
Do carroceiro ao luxo de R$ 400 mil
Um dos “proprietários” das empresas vive em uma casa de madeira, não possui CNH nem veículos registrados, e foi flagrado pela polícia usando uma carroça puxada por cavalos.
Ainda assim, uma das empresas em seu nome adquiriu um automóvel de R$ 400 mil.
Segundo o delegado Augusto Zenon, a discrepância entre o padrão de vida dos laranjas e os contratos milionários foi decisiva para comprovar o esquema:
“Esses indivíduos foram usados para ocultar a real atuação dos investigados, mas tinham pleno conhecimento dos negócios e se beneficiaram de alguma forma”, afirmou.
Depoimentos revelam aliciamento
Nos depoimentos colhidos, ficou claro como os empresários aliciavam os laranjas.
Uma das investigadas relatou ter conhecido um dos suspeitos durante a pandemia, enquanto vendia melancias na beira da estrada.
Ele se apresentou como pastor, ganhou sua confiança e a convenceu a abrir uma empresa em seu nome, prometendo que seria para serviços de faxina.
Outra mulher admitiu que aceitou emprestar seu nome a pedido de um sobrinho ligado aos suspeitos.
Crimes e indiciamentos
A investigação concluiu que os envolvidos responderão pelos crimes de fraude à licitação, associação criminosa, falsidade ideológica e uso de documentos falsos.
O delegado Cassiano Cabral, diretor do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Contra a Administração Pública (Dercap), destacou que a prática de emprestar nome ou CPF não será ignorada pela Justiça:
“Quem auxilia esquemas assim vai, sim, ser responsabilizado. Temos investigações semelhantes em andamento”, alertou.
Cooperação institucional
A operação contou com apoio do Ministério Público Estadual (MP-RS) e da Contadoria e Auditoria-Geral do Estado (Cage).
Com a conclusão do inquérito, o material foi encaminhado ao Judiciário, que deverá decidir os próximos passos contra os empresários e seus laranjas.



















