Concerto Andaluz – I

Andante espressivo – I A sala não guardava simetria. Ali, uma quase centena de alunos, alguns acomodados nas cadeiras universitárias irregularmente dispostas, buscava entender o discurso de quatro ou cinco…

Andante espressivo – I

A sala não guardava simetria. Ali, uma quase centena de alunos, alguns acomodados nas cadeiras universitárias irregularmente dispostas, buscava entender o discurso de quatro ou cinco dos mais exaltados, dentre estes, Miguel de Fuentes. Sob vaias e assovios da maioria, discutiam e opinavam acerca dos acontecimentos políticos que mostravam o lado obscuro e necrosado do Congresso Nacional e escandalizavam todo o cidadão brasileiro honrado e honesto. O

s ânimos mostravam-se acirrados. Objetos dos mais variados zuniam por sobre a cabeça dos debatedores. O sangue parecia inflamar as faces de Miguel de Fuentes. Sua fúria dirigia-se, principalmente, contra Fernando Mayer da Fonseca, filho de um político da extinta Arena, a quem Miguel chamara de “filhote da ditadura”.

Mayer da Fontoura sorria e, com menosprezo, vangloriava-se de que o pai ficara “por cima da carne-seca”. – “Às custas da delação dos companheiros que lutaram pela democracia e pela soberania da Nação”, vociferava Miguel. – “Apoiado!”, gritava a maciça maioria dos estudantes. – “Deixa o Mayer falar!”, defendiam alguns poucos. Este era o clima predominante quando ela, soberana, atravessou toda a extensão da sala de aula. Dispôs alguns livros sobre a mesa. Escolheu um deles, abriu-o e, impassível à algazarra em razão do calor da contenda, com a voz cálida e concentrada que o texto ordenava, recitou:

– “¡Oh, quién tuviera, hermosa Dulcinea, por más comodidad y más reposo,”

Os debatedores, de imediato, calaram-se, espantados, e, num respeitoso silêncio, cada um buscou o seu lugar. Ela continuou:

“a Miraflores puesto en el Toboso, y trocara sus Londres con tu aldea!”

Miguel, embevecido, já esquecera o acalorado e recente combate; sorvia uma a uma as palavras do soneto. Era sublime vê-la declamar com todo o vigor as palavras de La Señora Oriana a Dulcinea del Toboso:

– “¡Oh, quién de tus deseos y librea alma y cuerpo adornada, y del famoso”

Que poder possuía aquela voz que ora transportava Miguel à Morada dos Deuses? Que sentimentos eram aqueles – tão intensos – que invadiam a plenitude de seu ser numa mágica alquimia até então desconhecida?

“caballero que hiciste venturoso mirara alguna desigual pelea!”

Angélica Elisa – princesa moura encantada, trazida de outras terras por sobre um mar que os seus antepassados nunca sulcaram -, olhos amendoados, o nariz talhado pelo cinzel do Grande Escultor em dia de sublime inspiração e os lábios carmins dispostos nas faces excessivamente pálidas, trazia, no seu porte pequeno, luzes e sombras da Andaluzia. A voz melodiosa sacralizava ainda mais a poesia do imortal Mestre alcalaíno.

A qualquer instante, profundo era o sentimento que ela emprestava à declamação, poderiam irromper na sala Dulcinéia e o Cavaleiro da Triste Figura, montados no esquálido Rocinante. Permitiu aos alunos uma breve pausa para que pudessem desembarcar da idílica aventura proporcionada pela récita. Em seguida, a professora esboçou a vida de Cervantes.   

A cigarra anunciando o término do período trouxe Miguel à realidade. O tempo passara-lhe desapercebido. Olhou para suas anotações e certificou-se de que ali estava a tarefa para a aula seguinte: transcrever e interpretar a última estrofe do poema do Capítulo LXVIII, Segunda Parte, de “D. Quixote de La Mancha”:

“Assim o viver me mata, pois que a morte me torna a dar a vida! Condição nunca ouvida, a quem comigo vida e morte trata!”.

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