Um estado está por trás de 40% de um novo fluxo de moradores para o Litoral Norte
Esta é a terceira reportagem do Especial Litoralmania que investiga a transformação demográfica do Litoral Norte.
O Litoral Norte está recebendo moradores de diferentes partes do Brasil e também do Exterior. Mas os dados do Censo Demográfico 2022 revelam que esse movimento tem uma origem que se destaca muito acima das demais.
Em um levantamento exclusivo do Litoralmania, realizado a partir dos dados do IBGE para os 23 municípios do recorte desta série, foram identificadas 7.186 pessoas que, em 2022, não residiam no Rio Grande do Sul cinco anos antes e para as quais foi possível identificar onde moravam naquele momento.
Entre elas, 2.897 estavam em um mesmo estado brasileiro em 2017.
Esse grupo representa 40,31% de todo o universo analisado.
E o mapa mostra que o movimento não se concentra em uma única cidade. Embora um município tenha um peso muito maior, outras cidades do Litoral Norte também aparecem com números expressivos.
Por que a análise de migração usa 2022? Embora o IBGE já tenha divulgado estimativas populacionais para 2026, essas estimativas não trazem o mesmo detalhamento sobre a origem dos moradores.
Para investigar de onde vieram as pessoas que passaram a residir nos municípios do Litoral Norte, o levantamento utiliza os dados do Censo Demográfico 2022, que são a base oficial mais recente disponível com informações detalhadas sobre migração.
Assim, os números desta reportagem não representam uma estimativa de migração para 2026, mas o movimento registrado pelo Censo no período analisado, especialmente entre 2017 e 2022.
Um estado aparece muito à frente dos demais
O ranking elaborado pelo Litoralmania mostra uma diferença bastante grande entre a principal origem e as demais.
| Local de residência em 2017 | Pessoas | Participação |
|---|---|---|
| Santa Catarina | 2.897 | 40,31% |
| São Paulo | 798 | 11,10% |
| Exterior | 789 | 10,98% |
| Paraná | 480 | 6,68% |
| Rio de Janeiro | 332 | 4,62% |
| Minas Gerais | 301 | 4,19% |
| Distrito Federal | 162 | 2,25% |
| Maranhão | 126 | 1,75% |
| Bahia | 124 | 1,73% |
| Sergipe | 122 | 1,70% |
| Alagoas | 121 | 1,68% |
| Goiás | 113 | 1,57% |
| Mato Grosso do Sul | 109 | 1,52% |
O resultado chama atenção principalmente pela distância entre o primeiro colocado e o segundo.
As 2.897 pessoas que residiam em Santa Catarina cinco anos antes representam mais de três vezes o número observado para São Paulo, que aparece em segundo lugar, com 798.
Somados, São Paulo e Exterior chegam a 1.587 pessoas, ainda muito abaixo do contingente associado a Santa Catarina.
O mapa muda conforme a origem
O dado mais interessante da investigação aparece quando o ranking estadual é cruzado com os municípios do Litoral Norte.
Isso mostra que não existe um único mapa de migração.
Cada origem apresenta uma distribuição diferente entre as cidades da região.
No caso de Santa Catarina, por exemplo, Torres lidera com folga. Mas o fluxo também aparece de maneira significativa em Capão da Canoa, Tramandaí, Xangri-lá, Imbé e Osório.
Entre as pessoas que estavam em Santa Catarina em 2017:
- Torres: 966;
- Capão da Canoa: 312;
- Tramandaí: 279;
- Xangri-lá: 177;
- Imbé: 162;
- Osório: 150.
Ou seja, o movimento catarinense é forte em mais de um município.
Torres é o principal destino do fluxo catarinense
Torres aparece como o principal ponto de concentração dessa origem.
Das 2.897 pessoas que estavam em Santa Catarina cinco anos antes e aparecem no universo analisado, 966 estavam em Torres.
Isso corresponde a aproximadamente 33,3% de todo o fluxo catarinense identificado.
O número é expressivo, mas também revela uma informação importante: 66,7% desse fluxo estava distribuído pelos outros 22 municípios do recorte.
Por isso, a história não é apenas sobre Torres.
O município aparece como o principal destino, mas a presença de moradores que estavam em Santa Catarina também se espalha por praticamente todo o Litoral Norte.
Capão da Canoa aparece em vários mapas de origem
Capão da Canoa é outro município que ganha destaque quando as origens são separadas.
A cidade aparece em primeiro lugar entre os moradores que estavam em São Paulo cinco anos antes, com 239 pessoas.
Também lidera entre aqueles que estavam no Exterior, com 197 pessoas.
Além disso, registra 69 pessoas provenientes de Minas Gerais e 64 do Distrito Federal.
Isso coloca Capão da Canoa em uma posição diferente de Torres: enquanto Torres apresenta uma concentração especialmente forte do fluxo catarinense, Capão aparece como um destino importante para origens geográficas variadas.
Tramandaí também apresenta um mapa diversificado
Tramandaí é outro município que aparece repetidamente entre os principais destinos das diferentes origens.
Entre os moradores que estavam em Santa Catarina em 2017, foram identificadas 279 pessoas em Tramandaí.
Entre os que estavam no Paraná, foram 91.
Do Rio de Janeiro, 114.
De Minas Gerais, 50.
Do Exterior, 93.
O município, portanto, não depende de uma única origem geográfica no recorte analisado.
Tramandaí aparece como um dos destinos mais diversificados do levantamento.
São Paulo tem outro padrão
O estado de São Paulo aparece em segundo lugar no ranking geral, com 798 pessoas.
Mas sua distribuição também apresenta características próprias.
Capão da Canoa concentra 239 dessas pessoas.
Depois aparecem Santo Antônio da Patrulha, com 105, Imbé, com 75, Tramandaí, com 71, e Xangri-lá, com 59.
Torres, nesse caso, aparece com apenas 51 pessoas.
É uma diferença que mostra por que simplesmente divulgar o ranking dos estados não seria suficiente.
A origem é uma parte da história. O destino dentro do Litoral Norte é outra.
O Paraná também concentra seus moradores em cidades específicas
O Paraná aparece com 480 pessoas no levantamento.
Tramandaí é o principal destino, com 91 pessoas, seguida por Torres, com 88.
Capão da Canoa registra 54, Santo Antônio da Patrulha 49 e Osório 46.
O resultado mostra novamente uma distribuição diferente daquela observada para Santa Catarina e São Paulo.
Rio de Janeiro tem Tramandaí como principal destino
Entre as 332 pessoas que estavam no Rio de Janeiro cinco anos antes, 114 estavam em Tramandaí em 2022.
Capão da Canoa aparece com 51.
Mostardas registra 39.
Santo Antônio da Patrulha, 36.
Torres, 27.
É outro exemplo de como o fluxo interestadual não se distribui da mesma maneira entre os municípios.
E quem estava no Exterior?
O Exterior aparece em terceiro lugar no ranking, com 789 pessoas.
O resultado é praticamente o mesmo número observado para São Paulo.
Mas, novamente, o mapa interno é diferente.
Capão da Canoa aparece com 197 pessoas.
Torres registra 192.
Tramandaí, 93.
Osório, 86.
Santo Antônio da Patrulha, 83.
Esses cinco municípios concentram uma parcela importante das pessoas que estavam no Exterior cinco anos antes.
O dado reforça que a transformação demográfica da região não se limita à circulação de moradores entre estados brasileiros.
Um mesmo município pode receber fluxos muito diferentes
Quando os dados são colocados lado a lado, uma característica da transformação demográfica fica evidente.
Um município pode aparecer como importante destino de uma determinada origem e ter peso muito menor em outra.
Torres é o exemplo mais claro.
O município aparece com 966 pessoas vindas de Santa Catarina, mas apenas 51 relacionadas a São Paulo e 27 ao Rio de Janeiro.
Capão da Canoa apresenta comportamento praticamente inverso em algumas dessas origens: lidera entre os moradores que estavam em São Paulo e também entre os que estavam no Exterior.
Tramandaí aparece com força em diferentes mapas, especialmente quando são observadas as origens do Paraná e do Rio de Janeiro.
O Litoral Norte, portanto, não possui um único corredor migratório.
Existem diferentes fluxos se encontrando na mesma região.
O que o levantamento diz — e o que ele não diz
É importante fazer uma distinção metodológica.
Os números desta reportagem não significam que todas essas pessoas sejam necessariamente “novos moradores” no sentido de terem se mudado recentemente para o Litoral Norte.
A Tabela do Censo Demográfico 2022 considera pessoas de 5 anos ou mais que não residiam na Unidade da Federação cinco anos antes da data de referência e identifica onde elas moravam naquele momento.
Assim, o levantamento permite observar um movimento migratório de data fixa, comparando a residência em 2017 com a situação encontrada pelo Censo em 2022.
Ele não representa uma contagem de todas as mudanças de endereço ocorridas durante os dez anos anteriores.
Também não significa que essas pessoas nasceram nos estados identificados. O dado utilizado é o local de residência cinco anos antes, e não o local de nascimento.
2017 ajuda a enxergar uma transformação que o número da população sozinho não mostra
A primeira reportagem do Especial Litoralmania mostrou o tamanho da transformação populacional: o Litoral Norte chegou a 435 mil habitantes em 2026 e ganhou mais de 56 mil moradores em uma década.
A segunda reportagem foi além do número total de habitantes e investigou há quanto tempo parte dessa população já vivia nos municípios e onde estava sua residência anterior.
Agora, o terceiro capítulo dá mais um passo: usando o local de residência informado pelo Censo cinco anos antes, em 2017, é possível identificar de quais estados e países estavam vindo as pessoas que, em 2022, já residiam nos municípios do Litoral Norte.
É uma mudança importante de perspectiva.
O crescimento populacional mostra quanto a região cresceu. Os dados de residência ajudam a entender quem compõe essa transformação e quais territórios estão conectados a ela.
O resultado revela uma forte ligação com Santa Catarina, mas também mostra fluxos relevantes vindos de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e outros estados, além de pessoas que estavam no Exterior.
E o mapa fica ainda mais interessante quando se observa para onde esses moradores foram dentro do próprio Litoral Norte: os fluxos não se distribuem de maneira uniforme entre os 23 municípios.
O Litoral Norte recebe pessoas de praticamente todo o país
Embora Santa Catarina apareça muito à frente, o levantamento identificou moradores cuja residência em 2017 estava em diversas unidades da Federação.
Há registros de pessoas provenientes das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte.
Também aparece o Exterior, com 789 pessoas.
Isso significa que a transformação populacional do Litoral Norte não pode ser explicada por uma única direção de migração.
Existe um eixo regional muito forte, mas ele convive com fluxos vindos de diferentes partes do Brasil e de outros países.
Uma região conectada além das fronteiras do RS
O dado mais marcante do levantamento é justamente a força das conexões que ultrapassam as fronteiras do Rio Grande do Sul.
Santa Catarina responde por 40,31% do universo analisado.
São Paulo representa 11,10%.
O Exterior, 10,98%.
Paraná, 6,68%.
Rio de Janeiro, 4,62%.
Minas Gerais, 4,19%.
Somadas, essas seis origens representam a maior parte do fluxo interestadual e internacional identificado pela pesquisa.
Mas o mapa completo mostra uma rede muito mais ampla.
O próximo passo é olhar para dentro do próprio Rio Grande do Sul
O levantamento desta reportagem responde a uma pergunta importante: de onde estavam vindo, em 2017, as pessoas que, em 2022, já residiam em municípios do Litoral Norte, dentro do universo definido pelo Censo?
Mas existe outra pergunta que pode revelar uma dimensão ainda maior dessa transformação.
Quais municípios gaúchos estão enviando moradores para o Litoral Norte?
A segunda reportagem do Especial Litoralmania mostrou que 88,69% dos moradores com menos de dez anos de residência nos municípios analisados tinham como residência anterior algum local do próprio Rio Grande do Sul.
Agora, olhando para outro recorte do Censo — o das pessoas que não residiam no Rio Grande do Sul cinco anos antes —, sabemos que Santa Catarina aparece com enorme destaque entre as origens identificadas.
Mas o mapa da transformação ainda está incompleto.
Se uma parcela importante dos novos moradores vem de dentro do próprio Estado, quais municípios gaúchos estão mais conectados a esse movimento?
Esse será o próximo passo do Especial Litoralmania — A Transformação do Litoral Norte.
Especial Litoralmania: uma investigação em capítulos
Esta é a terceira reportagem do Especial Litoralmania — A Transformação do Litoral Norte.
O levantamento é uma investigação exclusiva do Litoralmania baseada no cruzamento e na análise de dados oficiais para os 23 municípios definidos no recorte editorial da série.
A proposta é investigar a transformação demográfica da região por diferentes ângulos: crescimento populacional, migração, origem dos moradores, tempo de residência, perfil da população, domicílios, trabalho, estudo e outros indicadores.
Os dados serão analisados em conjunto para evitar conclusões baseadas em um único número.
Não é apenas uma série para mostrar quantas pessoas o Litoral Norte ganhou. É uma investigação para entender quem está chegando, de onde essas pessoas vieram, quais municípios estão concentrando esses fluxos e como a região está mudando.
Como os dados foram analisados
O levantamento considera os 23 municípios do Litoral Norte definidos no recorte editorial desta série.
Os dados utilizados nesta reportagem têm como base o Censo Demográfico 2022 — Fecundidade e Migração: Resultados preliminares da amostra, do IBGE.
A principal fonte reúne pessoas de 5 anos ou mais de idade que não residiam na Unidade da Federação cinco anos antes da data de referência do Censo e informa onde elas residiam cinco anos antes.
Para esta reportagem, o Litoralmania somou os dados dos 23 municípios e calculou as participações percentuais de cada local de residência cinco anos antes.
Os números apresentados são, portanto, cálculos próprios do Litoralmania a partir dos dados do IBGE.
Importante: residência cinco anos antes, residência anterior e local de nascimento são variáveis diferentes. O levantamento desta reportagem utiliza especificamente a variável de residência cinco anos antes.
Essa última formulação é a mais segura porque deixa cristalino que estamos trabalhando com 2017 → 2022, e não com “todos os moradores novos” nem com local de nascimento.

















