Osório é destaque em seminário estadual sobre os desafios da amamentação na era digital

IA e algoritmos podem influenciar decisões sobre amamentação; especialistas alertam para novo desafio Inteligência artificial, algoritmos, redes sociais e publicidade digital entraram no centro das discussões sobre aleitamento materno durante…
Amamentação
Foto: Freepik

IA e algoritmos podem influenciar decisões sobre amamentação; especialistas alertam para novo desafio

Inteligência artificial, algoritmos, redes sociais e publicidade digital entraram no centro das discussões sobre aleitamento materno durante o 18º Seminário Estadual da Semana Mundial da Amamentação e o 8º Seminário Estadual da Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil (Eaab) 2026, realizados na última semana.

Especialistas alertaram que a forma como gestantes e mães recebem informações na internet pode influenciar decisões sobre amamentação, especialmente quando dúvidas comuns do pós-parto são associadas automaticamente à oferta de fórmulas infantis e outros produtos substitutos do leite materno.

O debate não trata apenas de publicidade tradicional. A preocupação agora envolve um ambiente digital em que plataformas conseguem identificar interesses, hábitos de navegação e momentos de maior vulnerabilidade do público, enquanto ferramentas de inteligência artificial passaram a responder diretamente às dúvidas dos usuários.

Por que a inteligência artificial entrou no debate sobre amamentação?

A mudança está relacionada à maneira como mães e gestantes procuram informação. Dúvidas sobre choro, irritabilidade, sono, pega, frequência das mamadas e percepção sobre a quantidade de leite podem ser pesquisadas em mecanismos de busca, redes sociais e, cada vez mais, em chatbots de inteligência artificial.

Segundo o pesquisador sênior da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Cristiano Boccolini, esse comportamento pode criar uma oportunidade para estratégias comerciais que associem uma preocupação materna a um produto.

Na avaliação apresentada no seminário, uma mãe que procura informações sobre o comportamento do recém-nascido pode encontrar conteúdos que reforcem a ideia de que existe um problema na amamentação. A partir daí, a fórmula infantil pode aparecer como uma possível solução.

O problema apontado pelos especialistas é que esse processo pode ocorrer de maneira diferente de uma propaganda tradicional.

Em vez de um anúncio claramente identificado, a influência pode aparecer em conteúdos de redes sociais, recomendações automatizadas, resultados de busca, publicações de influenciadores ou respostas produzidas por ferramentas digitais.

O que muda quando o algoritmo conhece o perfil da mãe?

Um dos principais pontos levantados no seminário foi a capacidade das plataformas digitais de trabalhar com grandes volumes de dados.

Uma busca feita durante a gestação ou nos primeiros meses de vida do bebê pode revelar interesses relacionados a gravidez, parto, sono, alimentação, produtos infantis e amamentação. Esses sinais podem alimentar sistemas de recomendação e segmentação de publicidade.

Isso cria uma diferença importante em relação ao modelo de publicidade das décadas de 1980 e 1990. Naquele período, a comunicação comercial dependia principalmente de meios de massa, como televisão, revistas, materiais impressos e distribuição de amostras.

Hoje, a comunicação pode ser personalizada, contínua e distribuída por várias plataformas. Sites, redes sociais, aplicativos, mecanismos de busca, e-mails, clubes virtuais e influenciadores fazem parte desse ecossistema.

Para uma mulher que acabou de ter um filho, isso significa que uma dúvida pesquisada em uma plataforma pode ser seguida por conteúdos relacionados em outra.

Por que mães de primeira viagem podem estar mais expostas?

A chegada de um bebê envolve uma série de decisões novas. Para mães de primeira viagem, muitas situações do cotidiano podem gerar insegurança, principalmente durante os primeiros dias e semanas.

Choro, irritabilidade, intervalos entre mamadas e dificuldades de pega são exemplos de questões que podem levar a buscas rápidas na internet.

O risco apontado pelos especialistas não está em procurar informação, mas em transformar uma dúvida ou dificuldade temporária em uma conclusão automática de que a amamentação não está funcionando.

Uma resposta encontrada na internet também não substitui a avaliação individual feita por profissionais de saúde. A necessidade de complementação alimentar, quando existente, deve ser avaliada de acordo com as condições de cada mãe e bebê.

O marketing de fórmulas infantis já é regulado?

Sim. A preocupação com a influência comercial sobre a alimentação infantil não surgiu com a internet.

Em 1981, a Assembleia Mundial da Saúde adotou o Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno. O documento estabeleceu recomendações para proteger e promover o aleitamento materno e regular a comercialização de fórmulas infantis, mamadeiras e bicos.

A OMS afirma que a promoção inadequada de produtos que competem com a amamentação pode afetar a escolha e a capacidade de uma mãe de amamentar de forma ideal. O Código também prevê que substitutos do leite materno estejam disponíveis quando necessários, mas não sejam promovidos de maneira inadequada.

O desafio atual é que o ambiente digital apresenta ferramentas que não existiam quando o Código foi criado.

O que é a NBCAL e como ela protege a amamentação?

No Brasil, as regras foram incorporadas ao sistema nacional de proteção por meio da Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância, Bicos, Chupetas e Mamadeiras (NBCAL).

A regulamentação brasileira estabelece restrições à promoção comercial de determinados produtos, entre eles fórmulas infantis para lactentes e fórmulas de seguimento, além de mamadeiras, bicos, chupetas e protetores de mamilo.

Por que a publicidade digital é mais difícil de fiscalizar?

Uma publicidade tradicional costuma apresentar uma peça identificável: um comercial, anúncio impresso ou material promocional. No ambiente digital, a influência pode estar distribuída por diferentes formatos.

Um conteúdo pode parecer uma recomendação pessoal, aparecer em uma publicação de influenciador, ser direcionado a determinado perfil ou surgir depois de uma busca feita pelo usuário.

Também existe a possibilidade de campanhas serem modificadas rapidamente, testadas em diferentes públicos e distribuídas simultaneamente em várias plataformas.

IA também pode ser usada para fiscalizar irregularidades

O avanço tecnológico não representa apenas um problema para a proteção do aleitamento. A própria inteligência artificial pode ser utilizada como ferramenta de saúde pública.

Durante os debates, foi apresentado o DigiCODE, plataforma desenvolvida para apoiar o monitoramento de conteúdos digitais potencialmente relacionados a infrações ao Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno e à NBCAL.

A proposta é utilizar inteligência artificial para ampliar a capacidade de identificação, organização e análise de conteúdos publicados no ambiente digital.

Na prática, uma ferramenta desse tipo pode ajudar equipes de vigilância a encontrar materiais que seriam difíceis de localizar por meio exclusivamente manual. A tecnologia funciona como apoio para identificar conteúdos que merecem análise mais detalhada.

Isso não elimina a necessidade de avaliação humana. A identificação automatizada de um conteúdo não significa, por si só, que houve uma infração. A e eventual responsabilização dependem da legislação aplicável e da avaliação das autoridades competentes.

O desafio passou da propaganda para o ecossistema digital

A discussão apresentada no seminário mostra uma mudança importante na forma de entender a publicidade relacionada à alimentação infantil.

O problema não está restrito ao anúncio de uma lata de fórmula. Ele pode envolver um conjunto de ações que começa na coleta de dados, passa pela identificação de um público e chega à entrega de conteúdos personalizados.

O que a mãe deve considerar ao buscar informações sobre amamentação na internet?

O ambiente digital pode ser útil para encontrar informação, mas algumas precauções ajudam a reduzir o risco de tomar decisões importantes a partir de conteúdos inadequados.

  • Desconfie de soluções universais: problemas de amamentação podem ter causas diferentes e precisam ser avaliados individualmente.
  • Observe quem está oferecendo a informação: verifique se o conteúdo é produzido por órgão público, instituição científica, profissional habilitado ou empresa.
  • Identifique publicidade: descontos, cupons, links de compra e recomendações de produtos podem indicar interesse comercial.
  • Não trate chatbot como profissional de saúde: ferramentas de IA podem produzir respostas convincentes, mas não fazem avaliação clínica individual.
  • Procure assistência profissional quando houver dificuldade: equipes de saúde e profissionais capacitados podem avaliar pega, produção de leite, ganho de peso e outras questões relacionadas à amamentação.
  • Compare informações: uma única publicação ou resposta automatizada não deve ser usada como única base para uma decisão de saúde.

Contato pele a pele também entrou na pauta

O seminário também abordou medidas relacionadas ao início da amamentação e ao cuidado neonatal.

Entre os temas esteve a Nota Técnica nº 98/2026, do Ministério da Saúde, que traz recomendações para profissionais de saúde e gestores de maternidades sobre a implementação do contato pele a pele imediatamente após o nascimento, durante a primeira hora de vida.

O documento orienta que o contato seja iniciado precocemente e mantido de forma ininterrupta quando as condições clínicas permitirem, contemplando partos vaginais e cesarianas.

A nota técnica também relaciona o contato pele a pele com o início e a manutenção do aleitamento materno, além de benefícios fisiológicos e de vínculo entre mãe e bebê.

Osório apareceu entre experiências municipais apresentadas no seminário

O encontro estadual também apresentou experiências consideradas exitosas em municípios gaúchos. Entre os exemplos citados esteve Osório, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul.

O tema ganha relevância porque o ambiente digital não possui fronteiras municipais. Uma família do Litoral Norte pode receber o mesmo conteúdo publicitário ou informativo direcionado a usuários de qualquer outra região do país.

O que mais foi discutido no encontro?

Além da relação entre inteligência artificial, algoritmos e aleitamento, a programação tratou de diferentes aspectos da saúde materno-infantil.

  • Relatório das Paternidades Brasileiras;
  • amamentação como espaço de acolhimento;
  • experiências municipais de Osório e Nova Petrópolis;
  • introdução alimentar e desenvolvimento infantil;
  • atuação de consultoras em amamentação;
  • contato pele a pele após o nascimento;
  • recomendações da Nota Técnica nº 98/2026.

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Amanda da Silveira Ferrari é estudante de Jornalismo pela UNISINOS, com experiência em produção de conteúdo, jornalismo de dados e comunicação pública.

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