El Niño pode encarecer alimentos; veja quais produtos estão no radar
O El Niño que tem ganhado força em 2026 pode afetar a produção agrícola brasileira e, dependendo da intensidade das perdas e das condições de mercado, pressionar os preços de alguns alimentos nos próximos meses.
No Sul, onde o fenômeno costuma favorecer chuvas mais frequentes e volumosas, trigo, milho, hortaliças, frutas e produção de leite estão entre as atividades que exigem maior atenção.
A preocupação aumentou com a evolução do fenômeno no Oceano Pacífico.
A NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, aponta que o episódio deve se intensificar ao longo do segundo semestre e permanecer até o início de 2027.
O órgão trabalha com elevada probabilidade de um El Niño muito forte, entre os eventos de maior intensidade registrados desde 1950.
Por que o El Niño pode chegar ao preço dos alimentos?
O caminho entre o fenômeno climático e o supermercado não é direto. O El Niño não significa, automaticamente, que todos os alimentos ficarão mais caros.
O que acontece é que alterações na chuva e na temperatura podem modificar o calendário agrícola, reduzir a produtividade de determinadas culturas, dificultar a colheita ou aumentar a incidência de doenças.
Quando isso reduz a oferta de determinado produto e a demanda permanece elevada, existe pressão para que os preços subam.
O efeito também depende de estoques, importações, produção em outros países, custos de transporte, câmbio e comportamento da demanda.
Quais alimentos estão mais expostos aos efeitos?
Milho
O milho é um dos produtos que merece atenção especial porque seu impacto vai muito além do consumo direto.
O cereal é utilizado na fabricação de ração para aves e suínos e também é matéria-prima para a produção de etanol. Uma redução significativa da oferta pode aumentar o custo de produção de diferentes cadeias do agronegócio.
O calendário também é um ponto de preocupação. Um atraso na colheita da soja, por exemplo, pode interferir no plantio da segunda safra de milho e reduzir o potencial produtivo.
Trigo e derivados
O Rio Grande do Sul está entre os estados brasileiros mais relevantes para a produção de trigo. A cultura pode ser prejudicada quando o excesso de chuva dificulta o desenvolvimento, a colheita ou reduz a qualidade dos grãos.
O impacto sobre o preço do pão e de outros derivados, porém, não depende apenas da produção gaúcha ou brasileira. O Brasil possui forte participação de trigo importado, especialmente da Argentina, o que pode ajudar a compensar parte de uma eventual redução da oferta nacional.
O cenário merece atenção porque a estimativa divulgada pelo IBGE em julho apontou uma produção nacional de trigo de cerca de 6,4 milhões de toneladas em 2026, queda de 18,6% em relação a 2025. A Região Sul responde por mais de 80% da produção brasileira.
Frutas e hortaliças
Produtos de hortifrúti estão entre os mais sensíveis às condições meteorológicas porque possuem ciclos relativamente curtos e, em muitos casos, menor capacidade de armazenamento.
Excesso de chuva pode provocar encharcamento do solo, doenças e perdas na qualidade. Já períodos de calor ou falta de água podem comprometer o desenvolvimento das plantas.
Por isso, quando ocorre uma perda localizada, o reflexo sobre os preços pode aparecer mais rapidamente do que em produtos que possuem estoques maiores ou possibilidade de importação.
Leite e proteínas animais
No Rio Grande do Sul, o excesso de chuva também pode afetar a produção de leite, especialmente quando prejudica pastagens, deslocamento de animais e manejo das propriedades.
Nas cadeias de aves e suínos, outro fator entra na conta: o preço da ração. Como o milho é um dos principais componentes desse insumo, uma eventual redução da oferta pode elevar custos para os produtores.
Café
O café também aparece no radar, mas a relação com a chuva é mais complexa.
Precipitações no período adequado podem favorecer a florada e o desenvolvimento da cultura. O problema surge quando a chuva ocorre em excesso ou coincide com temperaturas inadequadas.
Assim, não basta saber se vai chover mais ou menos: o momento, a intensidade e a distribuição das precipitações são determinantes para o resultado da lavoura.
Por que o Rio Grande do Sul merece atenção?
O padrão climático associado ao El Niño costuma favorecer o aumento das chuvas no Sul do Brasil.
O INMET explica que o fenômeno pode fortalecer o transporte de umidade em direção à Região Sul, favorecendo sistemas atmosféricos capazes de provocar chuva intensa e tempestades.
Para a agricultura, a água é essencial, mas o excesso também pode causar prejuízos.
O encharcamento do solo pode dificultar o plantio e a colheita, aumentar a ocorrência de doenças fúngicas e comprometer a qualidade de determinadas culturas.
Em agosto, o instituto também prevê chuva acima da média em áreas do Rio Grande do Sul, reforçando a necessidade de acompanhamento das condições meteorológicas durante o período.
O que esperar nos próximos meses?
Os órgãos de monitoramento climático indicam que o episódio deve continuar se fortalecendo ao longo do segundo semestre de 2026 e persistir até o início de 2027.
















