Estudo aponta que 86% dos estoques pesqueiros do Sul e Sudeste estão sobrepescados e alerta para impactos na economia
Mais de oito em cada dez estoques pesqueiros explorados comercialmente no Sul e Sudeste do Brasil apresentam níveis de sobrepesca, segundo um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande (Furg). A pesquisa analisou espécies capturadas entre o sul do Rio Grande do Sul e o norte do Rio de Janeiro e concluiu que a retirada de peixes do mar supera a capacidade natural de reposição das populações, colocando em risco a sustentabilidade da atividade pesqueira, a produção futura de pescado e milhares de empregos ligados ao setor.
O levantamento foi publicado na revista científica Fisheries Research e reúne uma das avaliações mais abrangentes já realizadas sobre os chamados estoques pesqueiros demersais da Margem Meridional Brasileira, grupo formado por espécies que vivem próximas ao fundo do mar e possuem grande importância comercial.
O que significa um estoque pesqueiro estar sobrepescado?
Os estoques pesqueiros representam a quantidade de indivíduos de determinada espécie disponível para exploração comercial.
Quando um estoque é considerado sobrepescado, significa que existe hoje uma quantidade de peixes inferior ao nível necessário para garantir sua reposição natural e manter uma produção sustentável ao longo dos anos.
Isso não significa, necessariamente, que a espécie esteja ameaçada de extinção. O problema está na redução da biomassa reprodutiva, formada pelos indivíduos adultos capazes de gerar novas gerações.
Com menos peixes adultos no ambiente, a recuperação das populações torna-se mais lenta e a produtividade da pesca diminui progressivamente.
O que revelou o estudo
Os pesquisadores analisaram 36 estoques pesqueiros de espécies exploradas comercialmente.
Destes, apenas 22 possuíam dados suficientes para uma avaliação completa.
Entre os estoques avaliados:
- apenas 3 foram classificados como saudáveis;
- 19 apresentaram algum nível de sobrepesca;
- 5 continuam sendo explorados acima dos limites considerados sustentáveis.
Segundo o pesquisador Luís Gustavo Cardoso, professor do Instituto de Oceanografia da Furg e autor principal do trabalho, o estudo permitiu criar um diagnóstico regional padronizado sobre a situação da pesca brasileira, reunindo informações biológicas, estatísticas de captura, esforço de pesca e composição das populações de diferentes espécies.
Espécies importantes para o Rio Grande do Sul estão entre as mais afetadas
Entre as espécies de maior relevância econômica para o Rio Grande do Sul aparecem algumas das situações mais preocupantes.
O estudo identifica déficits expressivos na biomassa de espécies como:
- corvina (Micropogonias furnieri);
- castanha (Umbrina canosai);
- maria-mole ou pescada-branca (Cynoscion guatucupa);
- merluza;
- abrótea;
- pescadinha-real.
A corvina e a castanha apresentam alguns dos maiores déficits registrados, indicando que suas populações estão muito abaixo do nível considerado ideal para oferecer a máxima produção sustentável.
São espécies que abastecem mercados, peixarias, indústrias de processamento e fazem parte da atividade pesqueira em diversos municípios gaúchos.
Impactos chegam muito além do pescador
Embora a redução dos estoques seja um problema ambiental, os reflexos são essencialmente econômicos e sociais.
Com menos pescado disponível no mar, diminui a produção das embarcações, reduz-se a renda dos pescadores e aumentam os custos das operações.
Para manter o mesmo volume de captura, muitas embarcações precisam navegar por períodos maiores ou alcançar áreas mais distantes, elevando gastos com combustível, manutenção e mão de obra.
O estudo também destaca que os prejuízos atingem toda a cadeia produtiva.
- indústrias de beneficiamento;
- empresas de transporte;
- exportadores;
- comércio;
- serviços ligados ao setor pesqueiro;
- empregos diretos e indiretos.
Municípios fortemente dependentes da pesca, como Rio Grande, podem sofrer impactos relevantes na economia regional caso o cenário permaneça.
Consumidor também pode sentir os efeitos
As consequências da sobrepesca não ficam restritas ao setor produtivo.
Segundo os pesquisadores, a menor disponibilidade de pescado tende a reduzir a oferta ao mercado.
Entre os possíveis reflexos estão:
- aumento dos preços;
- maior instabilidade no abastecimento;
- substituição de espécies tradicionais;
- crescimento da importação de pescado.
Esses fatores podem alterar tanto os hábitos de consumo quanto os custos para restaurantes, supermercados, peixarias e consumidores finais.
Produção atual está abaixo do potencial
Um dos resultados mais significativos do estudo mostra a diferença entre o potencial sustentável de produção e a realidade atual.
Segundo os pesquisadores, os estoques avaliados poderiam produzir aproximadamente 77 mil toneladas de pescado por ano sem comprometer sua renovação.
Entretanto, entre 2017 e 2019, a produção média registrada ficou em torno de 39 mil toneladas anuais, praticamente metade da capacidade estimada.
Isso demonstra que a redução das capturas não ocorreu porque a pesca se tornou mais sustentável, mas porque existe hoje menos peixe disponível para captura.
Décadas de expansão da pesca contribuíram para o cenário atual
O estudo aponta que a situação dos estoques pesqueiros é resultado de um processo acumulado ao longo de décadas. A partir dos anos 1960, a pesca industrial brasileira passou por uma rápida expansão, impulsionada por incentivos econômicos, modernização das embarcações e avanços tecnológicos que aumentaram significativamente a capacidade de captura.
Esse crescimento, porém, não foi acompanhado por um sistema robusto de monitoramento científico e gestão dos recursos pesqueiros. Segundo os pesquisadores, durante muitos anos as decisões relacionadas à exploração das espécies ocorreram com informações limitadas sobre o estado real das populações.
Com isso, sinais de redução dos estoques demoraram a ser identificados e, quando apareceram, diversas espécies já apresentavam queda significativa em sua biomassa.
Os impactos avançaram das áreas costeiras para águas profundas
Outro ponto destacado pela pesquisa é que o esgotamento dos recursos não ocorreu de maneira uniforme.
Inicialmente, a pressão pesqueira afetou principalmente as espécies capturadas próximas ao litoral. À medida que esses estoques diminuíram, a frota passou a operar em áreas mais profundas, ampliando a exploração sobre outras espécies demersais.
Esse deslocamento da atividade fez com que o problema atingisse praticamente toda a cadeia de recursos pesqueiros explorados comercialmente na Margem Meridional Brasileira.
Sobrepesca não significa extinção das espécies
Os autores fazem um alerta para evitar interpretações equivocadas dos resultados.
Uma espécie classificada como sobrepescada não está, necessariamente, ameaçada de desaparecer. O diagnóstico indica que sua população está abaixo do nível considerado ideal para garantir produtividade sustentável.
Na prática, isso significa que ainda existe possibilidade de recuperação, desde que a pressão de pesca seja reduzida e medidas de manejo sejam adotadas.
Experiências internacionais mostram que estoques explorados de forma intensiva podem voltar a crescer quando há planejamento de longo prazo, fiscalização e acompanhamento científico contínuo.
Quais medidas podem recuperar os estoques?
Os pesquisadores defendem uma combinação de ações para reverter o cenário identificado no estudo.
- fortalecimento do monitoramento científico;
- avaliações periódicas das populações de peixes;
- definição de metas biológicas para cada espécie;
- limites de captura baseados em evidências científicas;
- adoção de estratégias de manejo adaptativo;
- cooperação entre Brasil, Uruguai e Argentina para espécies compartilhadas.
Segundo os autores, essas medidas permitem ajustar a exploração conforme a situação de cada estoque, reduzindo riscos de colapso e favorecendo a recuperação das populações.
Exemplos internacionais mostram que a recuperação é possível
O estudo cita experiências bem-sucedidas em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e integrantes da União Europeia.
Nesses locais, a adoção de sistemas permanentes de monitoramento, limites de captura, planos de reconstrução dos estoques e fiscalização permitiu recuperar diversas espécies anteriormente consideradas sobreexploradas.
Além dos benefícios ambientais, a recuperação dos estoques trouxe ganhos econômicos, maior previsibilidade para o setor pesqueiro e aumento da rentabilidade da atividade.
















