O avanço do greening, também conhecido como Huanglongbing (HLB), mantém a citricultura brasileira em alerta. A doença, considerada a mais destrutiva dos pomares de citros e sem tratamento capaz de recuperar árvores contaminadas, já atinge quase 100 milhões de laranjeiras no principal cinturão produtor do país.
Em São Paulo, os produtores têm até 15 de julho para entregar os relatórios obrigatórios das inspeções realizadas no primeiro semestre de 2026.
As informações devem ser registradas no sistema Gedave e fazem parte das ações de vigilância da Defesa Agropecuária paulista para acompanhar o avanço da doença, orientar fiscalizações e reduzir os prejuízos econômicos provocados pelo greening.
O que é o greening e por que ele preocupa tanto?
O greening é causado por bactérias do gênero Candidatus Liberibacter, transmitidas principalmente pelo psilídeo Diaphorina citri, um pequeno inseto que se alimenta da seiva das plantas cítricas.
Depois de infectada, a árvore permanece doente por toda a vida. Não existe medicamento ou tratamento capaz de eliminar a bactéria.
Os principais efeitos incluem:
- queda prematura dos frutos;
- redução da produtividade;
- frutos menores e deformados;
- queda da qualidade para consumo e indústria;
- enfraquecimento progressivo da planta.
Além dos prejuízos individuais, uma única árvore contaminada pode servir como fonte permanente de infecção para todo o pomar e até para propriedades vizinhas.
Quase metade das árvores do principal cinturão produtor já apresenta a doença
O levantamento mais recente do Fundecitrus mostra que o greening atingiu 47,63% das laranjeiras do cinturão formado por São Paulo e pelas regiões do Triângulo e sudoeste de Minas Gerais.
No levantamento anterior, esse percentual era de 44,35%, indicando que a doença continua avançando mesmo com ações de controle.
Segundo o estudo, aproximadamente 100 milhões das cerca de 209 milhões de árvores existentes já apresentavam sintomas da doença.
Os pomares mais antigos são os mais afetados
A incidência cresce conforme aumenta a idade das árvores.
- mais de 10 anos: 58,43% das árvores contaminadas;
- entre 6 e 10 anos: 57,79%;
- entre 3 e 5 anos: 39,18%;
- até 2 anos: 2,72%.
Os dados demonstram que o problema tende a se acumular ao longo do tempo quando o controle não é rigoroso.
Como é feito o controle do greening?
Como não existe cura, a estratégia consiste em impedir que novas plantas sejam infectadas.
As principais medidas incluem:
- inspeções frequentes dos pomares;
- eliminação imediata das árvores com sintomas;
- controle permanente do psilídeo;
- uso de mudas certificadas e sadias;
- monitoramento constante das áreas produtoras.
O objetivo é interromper o ciclo de transmissão antes que o inseto leve a bactéria para árvores saudáveis.
Prazo de 15 de julho vale para produtores paulistas
Em São Paulo, todos os citricultores devem informar no Gedave os resultados das inspeções realizadas entre 1º de janeiro e 30 de junho.
A obrigatoriedade vale para propriedades com pomares novos e adultos.
O descumprimento pode gerar sanções previstas na legislação estadual.
Os relatórios permitem que a Defesa Agropecuária identifique áreas críticas e organize ações de fiscalização e controle.
As regras mudam conforme o estado
Desde julho de 2025, o Brasil possui uma norma nacional para prevenção e controle do HLB. A regulamentação estabelece critérios mínimos, mas cada estado pode definir procedimentos próprios.
Por isso, os prazos para entrega de relatórios e as exigências operacionais variam conforme a situação sanitária local.
São Paulo, Minas Gerais e Paraná possuem sistemas específicos para monitoramento da doença, enquanto estados livres da praga concentram esforços na prevenção da entrada da bactéria.
Safra bilionária está sob pressão
O impacto econômico vai muito além dos produtores individuais.
Segundo estimativa do IBGE, o Brasil deverá produzir 15,62 milhões de toneladas de laranja em 2026.
Desse total:
- São Paulo: 11,46 milhões de toneladas;
- Minas Gerais: 1,09 milhão;
- Paraná: 804 mil;
- Bahia: 633,1 mil;
- Sergipe: 386,7 mil;
- Rio Grande do Sul: 378 mil toneladas.
Somente São Paulo responde por cerca de 73,4% da produção nacional.
O Brasil é líder mundial nas exportações de suco de laranja
A importância econômica da citricultura brasileira amplia os efeitos do avanço do greening.
O país responde por aproximadamente três quartos do comércio mundial de suco de laranja.
Em 2025, as exportações de laranja e derivados movimentaram cerca de R$ 16,1 bilhões.
Nos cinco primeiros meses de 2026, as vendas externas já somavam aproximadamente 900 mil toneladas, gerando receita próxima de R$ 4,47 bilhões.
A redução da oferta de frutas pode aumentar custos de produção, pressionar a indústria e afetar toda a cadeia exportadora.
Há impacto para o Rio Grande do Sul?
Sim. Embora o Rio Grande do Sul esteja distante do principal cinturão citrícola brasileiro, o estado deverá colher cerca de 378 mil toneladas de laranja em 2026, segundo o IBGE.
Por isso, medidas de vigilância fitossanitária continuam importantes para impedir a disseminação da doença.
Além dos impactos diretos sobre produtores gaúchos, eventuais perdas na produção nacional podem influenciar preços, disponibilidade de frutas para a indústria e custos da cadeia de abastecimento.
Análise do Editor
O greening deixou de ser apenas um problema agrícola para se tornar uma ameaça econômica à principal cadeia citrícola do país. Como não existe cura, toda a estratégia depende da prevenção, da rapidez na identificação dos focos e da atuação conjunta entre produtores e órgãos de defesa vegetal. Quanto mais cedo uma planta contaminada é eliminada, menor é o risco de novas perdas no pomar e de impactos sobre a produção nacional.
















