Mortes de lobos-marinhos no litoral do RS assustam moradores, mas pesquisadores explicam fenômeno
A presença de lobos-marinhos-do-sul mortos na Praia do Cassino, em Rio Grande, voltou a chamar a atenção de moradores e frequentadores nas últimas semanas. Apesar do impacto causado pelas imagens, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) afirmam que a mortalidade registrada neste período é conhecida e está relacionada, em grande parte, ao ciclo natural da espécie.
De acordo com o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Pelotas, coordenado pela FURG, 467 lobos-marinhos-do-sul (Arctocephalus australis) mortos foram registrados desde 1º de agosto no trecho monitorado entre o Parque Nacional da Lagoa do Peixe e o Chuí.
Segundo Silvina Botta, coordenadora do projeto e pesquisadora da FURG, o número pode parecer elevado, mas está dentro do padrão observado para a espécie na região nesta época do ano.
A pesquisadora ressalta, porém, que isso não significa que todos os animais tenham morrido por causas naturais. A avaliação é de que a maioria das mortes está associada à mortalidade natural de indivíduos jovens.
Por que tantos lobos-marinhos aparecem mortos nesta época?
Os animais encontrados na costa gaúcha são, em sua maioria, jovens que deixam as colônias reprodutivas localizadas no Uruguai e começam a realizar deslocamentos em busca de alimento.
Essa mudança representa uma fase delicada da vida dos animais. Muitos deles passam a enfrentar sozinhos as dificuldades relacionadas à alimentação e à sobrevivência no ambiente marinho.
A presença sazonal de lobos-marinhos no litoral do Rio Grande do Sul é conhecida. A FURG já registrou que, em determinadas épocas do ano, esses pinípedes migram para a costa gaúcha e utilizam as praias e áreas de descanso da região.
Estudos acadêmicos também apontam que os movimentos pós-reprodutivos envolvem principalmente indivíduos jovens e machos adultos, que se dispersam a partir das áreas reprodutivas.
As mortes significam uma doença ou uma nova emergência?
Não há, nas informações divulgadas sobre este episódio, indicação de que as 467 mortes sejam resultado de uma nova doença ou de um evento extraordinário.
A explicação apresentada pelos pesquisadores é de que a mortalidade natural de jovens faz parte do ciclo da espécie neste período.
Isso é diferente de afirmar que qualquer animal encontrado morto na praia morreu naturalmente. Cada ocorrência pode ter causas específicas, e o monitoramento é justamente importante para identificar situações fora do padrão.
A região já foi afetada, em anos anteriores, por eventos de mortalidade associados a agentes infecciosos. A influenza aviária de alta patogenicidade, por exemplo, provocou mortes de mamíferos marinhos no litoral sul do Brasil durante o surto registrado em 2023. Isso não significa, porém, que o episódio atual esteja relacionado ao H5N1.
De onde vêm os animais?
O lobo-marinho-do-sul é uma espécie que utiliza diferentes áreas da costa do Atlântico Sul. As principais colônias reprodutivas da população que chega ao litoral gaúcho estão no Uruguai.
Após o período reprodutivo, parte dos animais se desloca para outras áreas em busca de alimento e descanso. O litoral do Rio Grande do Sul está entre essas regiões utilizadas pelos pinípedes.
Por isso, a presença desses animais na costa gaúcha aumenta em determinados períodos do ano, especialmente durante o inverno e a primavera.
O que significam as marcas azuis nas carcaças?
Quem encontra os animais na praia pode perceber uma característica que chama bastante atenção: algumas carcaças apresentam marcas de tinta azul.
A pintura não é sinal de que o animal tenha sido atingido por algum produto ou que tenha sofrido algum procedimento antes de morrer.
Segundo o projeto de monitoramento, as equipes utilizam tinta spray para identificar carcaças que já foram registradas e evitar que o mesmo animal seja contabilizado novamente durante uma nova passagem pela praia.
A prática permite melhorar a qualidade dos levantamentos e evitar a duplicação dos registros de mortalidade.
De acordo com Silvina Botta, a marcação com spray é utilizada há décadas por equipes como as do Centro de Recuperação de Animais Marinhos (CRAM) e do Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (NEMA), além de outros projetos de monitoramento de praias no Brasil.
O que fazer ao encontrar um lobo-marinho morto?
Apesar de muitos animais permanecerem naturalmente nas praias após a morte, o correto é não tocar na carcaça e não tentar removê-la.
O registro pelos projetos de monitoramento é importante porque permite acompanhar a ocorrência da espécie, identificar alterações nos padrões de mortalidade e investigar situações que possam representar riscos ambientais.
Também é importante evitar a aproximação desnecessária de animais vivos. Mesmo aparentando estar debilitados ou imóveis, mamíferos marinhos podem reagir quando alguém tenta tocá-los ou movimentá-los.
Monitoramento ajuda a diferenciar fenômeno natural de alteração ambiental
O acompanhamento sistemático das praias é fundamental para entender se determinado número de encalhes está dentro do comportamento esperado ou se existe alguma mudança que merece investigação.
O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Pelotas acompanha animais marinhos encontrados vivos ou mortos em uma extensa área do litoral e reúne informações que podem ser utilizadas em pesquisas e ações de conservação.
A FURG mantém projetos e estruturas voltados ao estudo e à conservação da megafauna marinha. A universidade também abriga a Coleção da Megafauna Marinha (ECOMEGA), que reúne material científico relacionado principalmente a mamíferos marinhos e tartarugas.
O que se sabe sobre os 467 animais registrados
- Espécie: lobo-marinho-do-sul (Arctocephalus australis);
- Registros: 467 animais encontrados mortos;
- Período: desde 1º de agosto de 2026;
- Área monitorada: trecho entre o Parque Nacional da Lagoa do Peixe e o Chuí;
- Principal perfil: maioria dos animais é formada por jovens;
- Explicação dos pesquisadores: a mortalidade de jovens nesta época é conhecida e faz parte do ciclo natural da espécie;
- Marcas azuis: utilizadas pelas equipes para evitar a contagem repetida das carcaças;
- Causa individual: não é possível afirmar que todos os animais morreram pela mesma razão.
Para quem frequenta as praias do Litoral Sul, portanto, a presença de animais mortos neste período não deve ser automaticamente interpretada como sinal de uma mortandade anormal.
O monitoramento científico é justamente o mecanismo utilizado para verificar quando os números ou as características dos encalhes fogem do comportamento esperado.

















