Na barca do inferno – Sergio Agra

Sergio Agra

NA BARCA DO INFERNO

Capítulo XXVI Da Série As Crônicas de Aleph

No local em que por mais de quarenta anos os espelhos do glamoroso Espace SB. refletiram o embelezamento e os cuidados das cabeças dos socialites de todo o Brasil desponta um imenso condomínio com duas torres residenciais. Inobstante, não teci qualquer comentário adverso ao que Aleph acabara de narrar. Como se eu ali não me encontrasse, Aleph, em total alheamento à realidade, como num fluxo de consciência transvazou seu dilema macbethiano:

— “Eu voltei lá, sim… Ao entardecer... O silêncio e a luz esmaecida do sol pareciam contribuir para compor o pano de fundo das remembranças em que os fracassos estendem os tentáculos de suas infindáveis sombras sobre tudo o que fora e me parecia não ter sido fruto único de minhas próprias escolhas como se eu despertasse àquela hora do dia agônico após um longo sono impreciso em sua duração o suficiente para que a Compreensão pudesse absorver a estagnação total daquele transcurso de Tempo de Horas e Dias e Meses e Anos agora congelados em sua essência e quem sabe encontrassem ainda sua Razão de ser mesmo que o indecifrável e hibernal Sono deixasse no CorpoAlma não há distinção o desconforto de quem se acomodara em posição incômoda é até curioso e agora se faz indispensável o desconforto como se sem ele não houvesse a possibilidade de se encontrar o fundamental equilíbrio para se der o passo seguinte definitivo inquestionável irrecorrível num torvelinho de sonhos paixões risos prantos encontros desencontros perdas ganhos idas e vindas até quando ninguém saberia dizer e que resultasse na Rosa Vermelha sobre pedras no Deserto da própria Memória onde tempestades se formam e mesmo a Redoma com sua ilusória guarida jamais conseguiria ser eis que a Máquina agride sob todos os aspectos nada é verdadeiro espontâneo todos os dados são reunidos classificados codificados programados e digeridos pois até a Máquina não desfruta da autonomia que se imagina tivesse para depois serem dejetados em ilusórias Soluções vez que mesmo a Máquina desconhece o limite e o momento de seu curtocircuito final…”.

Como se ainda permanecesse no alucinante transe Aleph olhou-me com firmeza e confidenciou que ele chegara – como Dante e Virgílio – à porta do Inferno. Encontrara no vestíbulo o caminho e por ele alcançou o Aqueronte, rio aonde Caronte, o barqueiro infernal, conduz a alma dos danados à margem oposta, rumo ao suplício…

https://www.youtube.com/watch?v=4T_G20bPZqQ

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