Cris, a quem conheci num ônibus, no rápido trajeto Capão da Canoa-Porto Alegre, trabalha como voluntária na Oficina de Criatividade, no Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre. Ela acompanha os asilares (internados) num espaço em que eles podem manipular instrumentos de arte e desenvolver até dons artísticos que possuam. A Oficina de Criatividade é uma oficina em dois sentidos: serve para os asilares se tratarem através de técnicas artísticas e serve de laboratório para os técnicos de saúde e investigadores apreciarem o resultado da terapia nos pacientes que regularmente a frequentam.
Apesar da rapidez da viagem, soube pequenos grandes detalhes da vida da jovem mulher, no descontraído e raro diálogo que mantivemos. Raro, porque o ser humano não tem mais tempo para os afetos, saber dos amigos, dos pais, o quê eles têm feito, se gozam de boa saúde, quais sãos os planos para as festas de fim de ano, dos sonhos e dos amores. Recolhem-se aos sons e imagens de seus Tablets ou Smartphones e ignoram a exuberância da vida que graciosamente desfila ali, bem à sua frente. A palavra de ordem é de quem mais corre e de quem chegar primeiro e ocupar o seu lugar no futuro, este, por sinal, cada vez mais incerto, ante a impunidade que campeia no Senado, nas Câmaras, nas ruas, nas escolas e até dentro de suas próprias casas. Em nome da modernidade, não se concede mais tempo para o sorriso, para o abraço, quanto mais para um papo num ônibus com alguém que, até então, não se conhecia. Não nos permitimos, sequer, olhar para dentro de nós mesmos, abrirmos os nossos “porões” e avaliarmos se realmente a história que estamos escrevendo é de fato, a história que nos foi destinada escrever. Recalcamos todas as nossas emoções: a tristeza, a raiva, o medo e a alegria.
Havia um imensurável afeto na voz de Cris quando se referia aos pacientes. Entrevi aqueles louquinhos sob outra ótica.
Lembrei-me, então, de uma amiga: Ao visitar o pai (conhecido empresário do setor da construção civil, acometido por intenso estresse, o homem se autointernara numa clínica psiquiátrica particular), fora instruída para que o aguardasse na recepção, pois era a hora do juramento à bandeira.
Estupefata, minha amiga avistou da janela da sala o pátio da clínica. Ali, comandados por um ex-combatente, um grupo de dez a doze homens marchava. Solenemente perfilados, cantaram o Hino Nacional e, num mastro improvisado, hastearam a bandeira, na verdade colorida toalha de banho. Depois, o “comandante” “condecorou” com tampinhas de refrigerantes, a guisa de medalhas, o “soldado” mais destacado, que outro não era senão o sorridente e orgulhoso pai de minha amiga.
A viagem chegara ao fim. Seguiríamos cada um o nosso rumo. Pensei, uma vez mais nos louquinhos e na maravilhosa doação de Cris. São eles os verdadeiramente felizes, naquele universo tão particular. Loucos, mesmo, somos nós, que insistimos em permanecer aqui “fora” e enfrentarmos assalto à mão armada, sequestro-relâmpago, bala perdida, quando não, impotentes, sabermos que nossas filhas ou mulheres foram estupradas por um demônio que a Justiça(?) premia com a liberdade.
Ignoro se Cris há de ler este recado. Não importa. Assim, em pensamento, ergo um brinde àquele encontro e a todos os abnegados trabalhadores voluntários.






















