Nesses momentos em me pergunto: – Que amada se aninharia no calor dos edredons, na maciez e no perfume dos lençóis, me contando histórias, e em sussurros me dizendo o que lhe causa prazer, o que lhe explode no peito, o que lhe fazer ser mulher por inteiro. De carícias, me deixasse louco, o mais dos amantes. Mordesse-me os lábios, bebesse do meu sangue, exaurisse minhas forças, esgotasse os meus desejos e morresse, ela própria, na infinitude do nosso amor galáctico sobre uma cama em flor e festa.
E, na ressurreição da manhã, num olhar ainda inebriado pela noturna e fantástica viagem, nos silêncios da hora matutina, me espreitasse a partida: terno e gravata, código nas mãos – operário rumo ao trabalho -, poeta em busca das estrelas cambiantes, das serestas e dos boêmios cantantes, do vinho generoso degustado em mesas sobre as calçadas, distraído, agora pela insinuante transparência das saias contra a luz morrente do sol sobre o Guaíba.
Porém, tudo se desvanece. Os meus fantasmas se impõe, me angustiam e endoidecem, me lançam do alto, de onde voo até o asfalto. Afinal, que duendes são esses que me invadem o computador, deletam meus poemas, roubam meu sonhos, desafinam minhas canções, escurecem o pôr do sol e afugentam minhas estrelas ouvintes?
A claridade se infiltra pelas frestas da janela e o quarto recupera suas formas. Os meus medos se esconderam nos escaninhos e nas gavetas da cômoda. Escuto vozes vindas da rua. As mulheres estão fazendo a feira. O caminhão da limpeza urbana recolhe o lixo dos hospitais. Os gatos se espreguiçam sobre os telhados e, ao longe, um elevador começa a funcionar. Eu me levanto, vou até o espelho: vitimassassino.
Não há testemunhas. Ando nu pelo apartamento. Não há quem me veja, me atravesse o caminho, ocupe o banheiro. Não há quem me faça o café, reclame da minha tosse e do jeito atravessado como eu durmo. Não há quem me faça perguntas, querendo saber pra onde irei, a que horas hei de voltar. Não há quem me inspire poemas, lembre canções. Não há quem me afague, me deixe navegar em louca paixão.
Não há quem me morda, me arranhe e me sangue o corpo inteiro. Não há uma cama em flor e festa.






















