O idiota (não o de Dostoievski)

Poucos causam tantos danos à sociedade quanto um idiota bem articulado e com razoável domínio sobre a oratória. Caso este idiota tenha acesso a algum veículo de comunicação ou mesmo…
Poucos causam tantos danos à sociedade quanto um idiota bem articulado e com razoável domínio sobre a oratória. Caso este idiota tenha acesso a algum veículo de comunicação ou mesmo a redes sociais, aí está pronto o estrago.

Até antes do fenomenal advento da internet um idiota era apenas um idiota e, como tal, se portava. Havia até certo desvelo comiserado por ele, um quase instinto paternal pelo desventurado. Hoje, o idiota é quem deseja impor seu desconexo modo de pensar aos demais e esta distorção é cada vez menos latente.

O idiota filosofa nas redes sociais sem saber que Goethe ou Nietzsche são mais do que nomes de avenidas e praças. Repete e “compartilha” aforismos pueris como se tivesse descoberto a “Teoria da Grande Unificação” e lança-se em prolixas discussões, quase todas terminadas em “He, he, he!”, que faria um gnu se sentir versado.

Estamos na era da glamorização da imbecilidade, por isso o idiota bem articulado, que antes vivia em tímido recolhimento, hoje faz questão absoluta de mostrar toda sua radiante erudição adquirida após acurados estudos das barras de rolagem do Facebook e dos resumos (bem feitos, é verdade) da Wikipédia.

O pior é que, cada vez mais, esse proeminente orador recebe a solidariedade dos outros idiotas (eles têm uma massacrante vantagem numérica) e em pouco tempo, em torno do zebu líder, uma massa de ruminantes estará mugindo em uníssono.

Assim acontece na literatura, quando um livreco pornográfico escrito por uma garota de programa encabeça a lista dos mais vendidos do país, enquanto vários escritores de talento nunca tiveram sequer a chance de verem seus livros publicados.  Assim acontece na música ao se misturar uma voz repugnante e uma letra deplorável a um ritmo aterrador e depois chamar esse dejeto de “cultura”. Assim acontece na política, quando alçamos ao cargo máximo da república um apedeuto maroto e seus conluiados para se refestelarem à nossa custa.

O idiota se enche de ufanismo ao receber turistas estrangeiros nas favelas do Rio de Janeiro. Ele se orgulha da miséria, da criminalidade e do atraso social em que vive. O idiota não percebe que o gringo vê em tudo isso uma bizarrice a ser fotografada e comentada quando voltar ao mundo civilizado.

Já ouvi um idiota bem articulado, cheio de firmeza e propriedade, fazer analogia entre a Rocinha e Veneza. Quando seus filhos se casarem ele poderá sugerir o roteiro mais apropriado para passarem a lua de mel.

A triste realidade é que nossos valores começaram a apodrecer bem debaixo dos nossos narizes. Hoje só há plateia no Brasil para os idiotas, e eles proliferam em toda parte: são professores, magistrados, cineastas, músicos, sociólogos, jornalistas, empresários. Parece que dominaram todo espaço e resta aos poucos diferenciados, a fim de garantirem seu sustento, se misturarem a eles. Hoje os gênios se fingem de imbecis para sobreviver. Afinal para cada gênio deve existir um milhão de ruidosos parvos prontos a aniquilar qualquer pensamento independente.
 
Tudo isso soa meio aristocrático? Se pensarmos nos termos que Aristóteles a definiu, pode-se dizer que sim! A aristocracia nasceu da necessidade de se combater a tirania. É isso mesmo! ”A aristocracia é o poder confiado aos melhores cidadãos, no sentido de possuírem melhor formação moral e intelectual para atender aos interesses do povo, sem distinções de nascimento ou riqueza.”

O termo pejorativo usado hoje surgiu quando algum idiota confundiu aristocracia com oligarquia, esta sim, regida por interesses escusos de grupos econômicos poderosos e bem definidos (Sarneys e Collors, por exemplo).

E eu? Onde me encaixo nesta escala? Bem, em uma espécie de limbo; tenho discernimento o suficiente para saber que estou a anos-luz de possuir a inteligência e a erudição necessárias para me julgar parte da elite intelectual a qual tanto adimiro, mas também tenho independência o bastante para não seguir a manada.

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He, he, he!

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