UFPel mapeia antigas rotas de tropeiros e vestígios arqueológicos no Rio Grande do Sul
Pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) estão percorrendo quatro municípios do Rio Grande do Sul para localizar, mapear e documentar vestígios arqueológicos relacionados às antigas rotas do tropeirismo.
O projeto passa por Santo Antônio da Patrulha, Bom Jesus, São José dos Ausentes e São Francisco de Paula e deve ser concluído até dezembro de 2026.
A pesquisa pode ajudar a identificar caminhos, estruturas e locais ainda ausentes dos registros oficiais, ampliando o conhecimento sobre a circulação de pessoas, animais e mercadorias pelo território gaúcho.
O trabalho é desenvolvido pelo curso de Arqueologia da UFPel em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por meio de um convênio considerado inédito para esse tipo de levantamento no Estado.
O que os pesquisadores estão procurando?
A equipe busca sinais materiais que possam indicar por onde passaram as tropas de gado e mulas e como esses caminhos se relacionavam com fazendas, vilas e outros pontos de circulação.
Entre os possíveis vestígios estão:
- corredores e caminhos de pedra;
- taipas;
- ruínas de antigas fazendas;
- estruturas construídas associadas às rotas;
- outros elementos materiais relacionados à circulação e ocupação do território.
Uma das descobertas mais relevantes pode ser justamente a identificação de locais que ainda não aparecem nos cadastros oficiais, mas que permanecem conhecidos por moradores ou pesquisadores das comunidades.
O levantamento não procura apenas estabelecer uma linha no mapa. A proposta é entender a rede formada por diferentes caminhos, ramais e pontos de conexão que permitiam o deslocamento das tropas pelo Rio Grande do Sul.
Como a UFPel encontra os antigos caminhos?
O trabalho começa antes da chegada dos pesquisadores ao campo. A equipe analisa documentos históricos e imagens de satélite para identificar áreas onde possam existir estruturas ou outros vestígios.
A partir dessas informações, os possíveis locais são mapeados e inseridos em equipamentos de GPS. Em campo, os pesquisadores utilizam drones, equipamentos de medição e ferramentas de georreferenciamento para registrar as características das áreas investigadas.
O conhecimento dos moradores também é utilizado como fonte para localizar possíveis vestígios e compreender a história das localidades.
Segundo Rafael Corteletti, professor do Bacharelado em Arqueologia da UFPel e integrante do projeto, as entrevistas com pessoas que conhecem a região também serão incorporadas à documentação produzida durante a pesquisa.
Assim, o levantamento combina fontes documentais, imagens de satélite, tecnologia de georreferenciamento, observação direta e memória das comunidades.
Por que o tropeirismo foi importante para o Rio Grande do Sul?
O tropeirismo teve papel importante na circulação de animais e mercadorias e na ocupação de diferentes áreas do território gaúcho a partir do século 18.
As tropas não percorriam necessariamente um único caminho. A circulação era formada por diferentes rotas e ramais que conectavam fazendas, áreas de criação, vilas e pontos de comércio.
Com o tempo, esses trajetos ajudaram a estabelecer conexões econômicas e territoriais que contribuíram para a formação e o desenvolvimento de comunidades.
A pesquisa da UFPel parte justamente dessa característica: em vez de imaginar o tropeirismo como uma única estrada histórica, o projeto procura reconstruir uma rede de caminhos.
O que o tropeirismo tem a ver com a cultura gaúcha?
O impacto do tropeirismo vai além da logística de transporte de animais.
Segundo a pesquisa, a circulação das tropas está relacionada a processos de ocupação territorial e à formação de práticas culturais associadas ao modo de vida do Rio Grande do Sul.
O professor Rafael Corteletti relaciona esse processo à circulação do gado após o período missioneiro. Animais criados nas reduções jesuíticas passaram a circular pelo território e, posteriormente, foram capturados e transportados para outras regiões com o avanço da ocupação portuguesa.
Os caminhos utilizados nesse processo conectaram diferentes áreas e contribuíram para a criação de relações econômicas e sociais que permaneceram na formação histórica do Estado.
Por isso, localizar esses trajetos significa também investigar uma parte da história da formação do território e das referências culturais associadas à vida no campo, à criação de animais e à circulação entre diferentes localidades.
Quando começou o projeto da UFPel?
A pesquisa começou a ser estruturada em 2024, após uma chamada pública do Iphan motivada por uma demanda do Ministério Público.
A proposta apresentada pela UFPel foi selecionada e os recursos destinados ao projeto foram liberados em 2026, permitindo o avanço dos trabalhos de campo.
A equipe é formada por sete integrantes: dois professores, um doutorando e quatro estudantes de graduação.
O que será feito com os resultados?
Ao final do trabalho, os pesquisadores pretendem organizar os resultados em mapas, relatórios e catálogos, além de inserir os dados no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) do Iphan.
O sistema é utilizado pelo instituto para o registro e gestão de informações relacionadas ao patrimônio cultural. O próprio Iphan informa que o reconhecimento de sítios arqueológicos ocorre por meio da homologação de seus cadastros no SICG.
A documentação produzida pela UFPel poderá contribuir para que os municípios conheçam melhor os vestígios existentes em seus territórios e tenham informações para ações de preservação, educação patrimonial e turismo cultural.
















