Pedro Ortaça morreu aos 83 anos na madrugada desta sexta-feira (29), em Ijuí, após complicações de saúde que se agravaram nos últimos meses.
Último Tronco Missioneiro deixa legado histórico para a cultura gaúcha
O Rio Grande do Sul amanheceu em luto nesta sexta-feira com a morte de Pedro Ortaça, cantor, compositor e uma das figuras mais importantes da música regionalista gaúcha.
Segundo familiares, o artista sofreu uma parada cardiorrespiratória durante a madrugada. Ele havia passado recentemente por cirurgia de amputação de uma das pernas.
Nos últimos anos, Ortaça enfrentava sucessivos problemas de saúde, incluindo internações por pneumonia, edema pulmonar e tratamento de diálise em Ijuí, cidade onde residia desde março de 2025.
O músico deixa a esposa Rose, os filhos Gabriel, Marianita e Alberto, além de netos.
Velório terá cerimônias em Ijuí e São Luiz Gonzaga
A família confirmou que o velório ocorrerá em Ijuí. Também está prevista uma cerimônia em São Luiz Gonzaga, terra natal do artista e símbolo da cultura missioneira.
A despedida deve reunir admiradores, músicos tradicionalistas e lideranças culturais de diversas regiões do Estado.
Quem foi Pedro Ortaça
Nascido em 29 de junho de 1942, no Pontão de Santa Maria, interior de São Luiz Gonzaga, Pedro Ortaça construiu uma trajetória marcada pela defesa das raízes missioneiras, dos povos ancestrais e da identidade gaúcha.
O gosto pela música surgiu ainda na infância, influenciado pela família de músicos.
O avô, Quintino Martins dos Santos, era gaiteiro. A mãe tocava cordeona e o pai violão.
Durante a juventude, trabalhou em granjas de arroz em São Borja e desenvolveu sua musicalidade nos galpões, bailes de campanha, rodas de amigos e canchas de bocha.
O sucesso de “Bailanta do Tibúrcio” e “Timbre de Galo”
Pedro Ortaça eternizou seu nome no cancioneiro gaúcho com músicas como Timbre de Galo, Bailanta do Tibúrcio e Queixo Duro.
A inspiração para “Bailanta do Tibúrcio” nasceu ainda na infância, quando observava escondido os bailes realizados nas comunidades rurais das Missões.
As composições de Ortaça misturavam tradição, crítica social, memória histórica e valorização das raízes indígenas e populares do Rio Grande do Sul.
O último Tronco Missioneiro
Pedro Ortaça era o último integrante vivo dos chamados Troncos Missioneiros, movimento cultural que revolucionou a música regionalista gaúcha.
O grupo também reunia:
- Noel Guarany (1941-1998)
- Cenair Maicá (1947-1989)
- Jayme Caetano Braun (1924-1999)
O termo surgiu a partir de um disco lançado em 1988 pela USA Discos, reunindo os quatro artistas.
Juntos, eles romperam padrões da música tradicionalista ao inserir críticas sociais, temas históricos e reflexões sobre desigualdade, ancestralidade e injustiça.
Última música homenageou os 400 anos das Missões
Em agosto de 2024, Pedro Ortaça lançou sua última canção: Pena Guarany, gravada ao lado do filho Gabriel.
A música homenageou os 400 anos das Missões Jesuíticas, celebrados em 2026.
Mesmo com a saúde fragilizada, o cantor seguia compondo e participando de projetos culturais ligados à memória missioneira.
Reconhecimento estadual e nacional
Ao longo da carreira, Pedro Ortaça recebeu importantes homenagens:
- Prêmio Vitor Mateus Teixeira da Assembleia Legislativa em 2006
- Medalha do Mérito Farroupilha em 2010
- Reconhecimento como Mestre das Culturas Populares Brasileiras pelo Ministério da Cultura
- Patrono dos Festejos Farroupilhas 2024
- Título de Doutor Honoris Causa pela UFSM em abril de 2025
Pedro Ortaça defendia a música como instrumento de justiça social
Mais do que cantar o campo e os costumes gaúchos, Ortaça defendia uma música conectada à realidade social.
Em entrevistas, criticava desigualdades, guerras e a ausência de valorização da cultura indígena e popular na música regionalista tradicional.
O artista costumava afirmar que era preciso cantar “as injustiças do mundo” e preservar a memória dos ancestrais.





















