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Renato e Maria Clara – Erner Machado

Para os convencidos como eu, que imaginam que escrevem alguma coisa de valor , tem um significado imenso, quando recebem um pedido , de um de seus 9 ou 10 leitores, para republicarem um dos seus escritos.

Foi o que aconteceu com o texto a seguir, que republico com enorme alegria e com agradecimentos ao leitor que o solicitou.

(Recanto da Ana e do Erner 01.04.25- Capão Novo)

RENATO E MARIA CLARA

O Jornal do Almoço de um passado não muito distante, mostrou os dois.

Maria Clara e Renato ou Renato e Maria Clara.

 Por mim, a história dos dois foi ouvida e assistida com uma profusão de lágrimas…

A Maria Clara, ao nascer teve paralisia cerebral, que lhe tolhe, parcialmente, a mão direita e não lhe proporciona movimentos labiais regulares impedindo, com isto, que se expresse com normalidade.

 Independente deste problema é uma mulher bonita, com um grande sorriso que se manifesta, em seu rosto, nos dando e transmitindo uma sensação de alegria e de felicidade.

A Maria Clara, como toda a jovem frequentou festas, reuniões dançantes e bailes.

Relatou que, nesta fase de sua vida, nunca teve um namorado. Sentava-se nas mesas com as suas amigas e quando estas iam dançar, algum rapaz se aproximava, dela, e iniciava a se apresentar mas, logo se retirava, com um sorriso ou sem ele, quando Maria Clara falava ou movimentava as mãos.

E, suas festas, Seus bailes e ou suas reuniões dançantes eram embaladas por solidão, por desenganos e por tristezas.

Por muito tempo, foi assim… Até que um dia apareceu um sujeito alto, bom cabelo, elegante que chegou na mesa onde ela estava, sentada, enquanto a outras dançavam.

Ouvia -se Renato e seus Blue Caps, cantando Menina Linda…! O sujeito sentou-se e, estendo, a mão se apresentou: Olá, eu sou o Renato. Quer dançar comigo?

Era um convite incondicional que não admitia recusa. Maria Clara ao apresentar-se, misturando voz com gestos, levantou-se e com dificuldade disse seu nome e com mais dificuldade esforço, colocou a mão direita no ombro esquerdo do Renato e saíram pela sala dançando sob o som dos Blue Caps, que agora tocava “Nos braços, nos olhos e no coração”, cuja letra poderia ter sido feita por ela, nas horas infindas e solitárias em que ficava sentada nas mesas dos salões.

“Me leva nos braços, nos olhos e no coração

E deixa que eu seja o sentido da sua canção

Quero fazer de você uma pessoa feliz

E dedicar pra você todos os versos que fiz

Quero curtir com você o céu, as estrelas e a lua

Quero ouvir de você: “Vem que eu sou sua!”

Me leva nos braços, nos olhos e no coração

E deixa que eu seja o sentido da sua canção…”

Foi o encontro de suas vidas. No mesmo dia Maria Clara e Renato começaram a namorar.

Ela nem acreditava!

A família dele foi contra, mas não há nada que possa impedir a força de um grande amor que se expressa nos olhares de duas almas quando se encontram.

 Casaram-se!

A foto do casamento, mostra uma Maria Clara e um Renato Felizes.  Sorridentes. Alegres. De bem com a vida.

Maria Clara tinha medo de que sua genética fosse transmissível. Conversou com Renato, sobre isto, e acordaram, juntos, que não teriam filhos.

Estavam juntos, já  há quase  cinco anos, alegres, felizes e vivendo momentos de amor inesquecíveis.

De repente, não mais que de repente, o Renato descobre que, incurável e progressivamente, uma doença está liquidando com o seu sistema muscular.

Suas pernas, seus braços e suas mãos foram sendo afetadas lhe impedindo os movimentos.

E está, cada dia, pior.

A Maria Clara, esqueceu-se de si, curada que foi de sua alma, pelo amor do Renato e dedica-se diariamente a ser o amparo, o guia, para o seu amado.

 Maria Clara, fisicamente frágil, já não consegue mais levantar o corpo do Renato, para movimentá-lo da cama para a  cadeira de rodas ou para outros locais.

Por esta razão a Jornal do Almoço chamou a atenção de que eles precisam de um equipamento tipo guindaste, usado para estas  patologia e fez um apelo  no sentido de que alguém pudesse ajudar…

Tive certeza, quando vi a reportagem que eles iriam conseguir.

Hoje, passados tantos anos, não sei se conseguiram.

Mas se não conseguiram tenho certeza de que continuarão tocando a vida, com os seus corpos se arrastando pelo espaço humilde em que moram, vivendo o seu dia a dia, amparados pelo companheirismo, pela fidelidade, pela amizade mas, acima de tudo pelo amor, pelo enorme amor que nasceu durante uma reunião dançante na qual o Renato teve a coragem e a gentileza de tirá-la para dançar e que dançaram a música cujas letra e melodia serão eternas…

Com grande dificuldade o Renato expressou-se dizendo que eles são o Renato e a Maria Clara ou a Maria Clara e o Renato. São, portanto, um só corpo e uma só alma.

Completam-se. Somam-se. Fundem-se. Tudo em nome do amor que os une e que nunca os haverá de os separar.

Fiz este texto porque ainda continuarei ouvindo, por muito tempo talvez, para sempre: Maria Clara e Renato, Renato e Maria Clara…!

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Seus nomes soam para mim como uma canção de amor, como um poema que retrata a história daqueles que, embora, massacrados pela fatalidade, pela dor, pelas limitações de todas as ordens, sempre sonham com um novo dia e, em nome do AMOR, NUNCA DESISTEM!!!

Erner Antonio Freitas Machado

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