Violência e Sociedade – Dr. Sander Fridman
Pessoas “picotadas”, degoladas, chacinadas, incineradas, sequestros de cidadãos aos milhares por agentes do Estado, perseguições políticas aos olhos de todos, imposição de imunogênicos experimentais a bebês e crianças – histórias de terror passeiam no noticiário local e internacional.
Haverá espaço para uma utopia social de não-violência – um libertarianismo de direita ou de esquerda? Da física aprendemos o princípio da entropia: toda organização exige energia para evitar sua dissolução no infinito. Violenta-se aqui o “direito da matéria à entropia”. Durkheim falava da aplicação dos princípios da física no campo da ética. Neste caso, toda organização linguística, cultural, política, que nos define enquanto seres humanos, impõe-se violentamente, às custas da livre escolha.
Não se transmitem valores, conhecimentos comuns, e engajamento social, sem a violência da imposição de um currículo escolar, cobrança de boas notas, de um comportamento adequado, de um desenvolvimento profissional. Mas a cidadania não se insurge contra isto: protesta, sim, pelo fracasso no dever do Estado e da Sociedade de justamente exercerem este tipo violência. As pessoas que não a sofreram são vítimas do descaso, roubadas no seu direito formativo.
A violência que combate o crime – o criminoso – salva a sociedade da violência por ele causada. Com Brecht, diríamos: violentas são as águas de um rio, mas também as margens que o comprimem. Bukele, en El Salvador, ensinou: o controle de grandes e descontroladas organizações violentas, demanda uma violência ainda maior, mais bem organizada, sem faltar com a lei.
Se entendemos o princípio da coerência entre efeitos, atos e intenções, perguntase: de que lado estão os que hoje se encarregam do dever de limitar a violência social? E se do lado errado, como corrigir este enviesamento perverso?
* Dr. Sander Fridman é psiquiatra, psiquiatra forense, Doutor pela UFRJ e Estágio Pós- Doutoral em Direito pela UERJ.