A legislação brasileira estabelece que, a partir dos 70 anos, o voto deixa de ser obrigatório.
Para muitos, essa concessão soa como uma licença para o descanso político, uma oportunidade para se afastar dos debates acalorados e deixar que as decisões sobre o futuro fiquem exclusivamente a cargo das gerações mais jovens.
Respeito quem assim opta, mas sigo no caminho inverso.
Aos 79 anos, continuo comparecendo às urnas com o mesmo compromisso e entusiasmo de sempre.
Para mim, a cidadania não tem data de validade.
Votar não é um mero dever burocrático de quem é forçado pela lei, mas um compromisso moral com o país.
Acredito firmemente que interferir positivamente nos destinos da nossa nação, oferecendo a nossa opinião por meio do voto consciente, é uma responsabilidade da qual não podemos nos omitir.
A omissão, afinal, também é uma escolha — e quase sempre uma escolha que entrega o nosso destino nas mãos de terceiros.
A presença dos idosos no processo eleitoral traz para a democracia um ativo insubstituível: a experiência.
Ao longo de quase oito décadas de vida, acompanhei transformações profundas na sociedade, vivi períodos de instabilidade econômica, reformas políticas e transições sociais.
Essa bagagem histórica nos concede uma perspectiva diferenciada.
O eleitor experiente aprendeu a olhar para as promessas eleitorais com mais discernimento, a avaliar os impactos de longo prazo das políticas públicas e a reconhecer que soluções fáceis para problemas complexos raramente funcionam.
Além disso, o voto na maturidade carrega um forte componente de generosidade intergeracional.
Quando votamos aos 79 anos, não estamos pensando apenas nos anos que temos pela frente, mas no país que deixaremos para nossos filhos, netos e para as próximas gerações.
Trata-se de colocar a vivência acumulada ao serviço do bem comum, garantindo que o debate público seja enriquecido por memórias, aprendizados e pela prudência que só o tempo é capaz de ensinar.
Em um momento em que a sociedade muitas vezes invisibiliza a população idosa, exercer o direito de voto é também um ato de afirmação.
É demonstrar que continuamos vivos, atentos e ativos na vida comunitária.
A democracia se fortalece na pluralidade, e um debate eleitoral só é plenamente representativo quando acolhe a energia e o idealismo da juventude somados à sabedoria e à memória dos mais velhos.
Enquanto a saúde e a lucidez me permitirem, estarei lá, na fila da seção eleitoral, com o documento na mão e a consciência tranquila.
Continuarei exercendo a minha voz porque entendo que construir um país melhor é uma tarefa contínua, que exige o esforço de todos — em todas as idades.
















