Câmbio ou inflação? Uma complexa queda de braço

Há algumas semanas, escrevi sobre a volatilidade do mercado de capitais brasileiro, mais especificamente em relação ao quase circuit breaker do Ibovespa em Agosto/11. Pois bem, após a última semana,…
Há algumas semanas, escrevi sobre a volatilidade do mercado de capitais brasileiro, mais especificamente em relação ao quase circuit breaker do Ibovespa em Agosto/11. Pois bem, após a última semana, me vejo obrigado a voltar ao assunto. Desta vez, mudando o foco para o câmbio.

Após a vertiginosa alta de 2008, quando a paridade Dólar/Real alcançou a casa dos R$ 2,50, nunca mais foi observado movimento tão intenso quanto o das últimas semanas. Desde 2009, a moeda norte-americana vinha numa clara e constante tendência de baixa até Julho/11, quando era negociado na casa de R$ 1,50. Dessa mínima ao fechamento da última sexta-feira, a alta foi de incríveis 23%, enquanto em 2011 chega a 12%.

O estopim para o movimento altista da moeda foram os constantes aumentos do IOF cobrado em operações futuras vendidas em Dólar. Com tal medida, o governo federal restringiu a participação na ponta vendida do Dólar, forçando o mercado a operar na ponta comprada ou “zerado”.

Com o agravamento econômico na Zona do Euro, tivemos uma corrida pelo Dólar, que ainda é a reserva cambial mais segura no mundo. A conclusão acaba sendo simples: com poucos atuando na ponta vendida, elevada demanda e porta de saída apertada, a moeda disparou e obrigou o Banco Central (BC) a fazer algo que desde junho de 2009 não realizava. Disponibilizou US$ 5,6 bilhões em um leilão de swap reverso, atuando na ponta vendedora do mercado, de modo a conter a alta do Dólar. Ou seja, a queda de braço do governo que visava elevar a paridade Dólar/ Real, em três semanas passou a ser o inverso, fazendo o BC operar para “derrubar” a cotação da moeda.

Essa alternância de “ponta” em nada tem a ver com falta de bom senso do BC, mas com outra questão macroeconômica. Quanto mais elevado o Dólar no mercado interno, menos competitivo fica o produto importado, e consequentemente o nacional ganha espaço, inclusive elevando seus preços que até então vinham comprimidos em função da concorrência dos importados. Ou seja, o Dólar elevado é prejudicial à inflação (IPCA), o que pode arrasar definitivamente as chances da mesma convergir para sua meta.

Nesta briga, entre o câmbio e inflação, o BC aparentemente vem dando sinais de que pretende trabalhar para manter o câmbio na faixa entre R$ 1,70 e R$ 1,90. Nesse patamar, parte da indústria nacional acaba sendo protegida dos importados, mas não ao ponto de pressionar significativamente a inflação.

Como temos plena convicção de que a economia está longe de ser uma ciência exata, sabemos que existe o risco de uma deterioração acentuada da Zona do Euro e consequentemente fuga para o Dólar. Com isso, é factível especular sobre uma inflação significativamente acima da meta em 2011.

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Para se proteger de tal movimento, estamos monitorando de perto setores da economia brasileira como Shopping Centers, Locação Comercial e Concessões Rodoviárias, que reajustam contratos via inflação, além de Siderurgia, que ganha com a elevação do câmbio. Quem de fato vai ganhar essa queda de braço entre câmbio e inflação, ainda não vemos com clareza, mas entendemos que o mais prudente é estar com o portfólio azeitado para tal cenário.

Gustavo Pires
Área de Análise

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