E por falar em amor…

Durante esta semana, leitores e amigos brindaram-me com generosos comentários. A razão disso se deveu na declaração de amor que fiz à minha mulher, materializada na crônica editada neste Litoralmania…
Durante esta semana, leitores e amigos brindaram-me com generosos comentários. A razão disso se deveu na declaração de amor que fiz à minha mulher, materializada na crônica editada neste Litoralmania na segunda-feira, 30, “Guiomar ainda existe, sim”.

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Quando meu pai, aos 56 anos de idade, partiu, no dia seguinte escrevi um contrito requiescat in pace. Na última vez em que nos falamos, tivéramos – como tantas vezes outras – divergências nos nossos pontos de vista. Sequer lembro-me se nos despedimos. A certeza é que, em mim, a mágoa permanecera flagrantemente estampada. Ele, como em todas as nossas altercações (somente a quem não cultivamos afetos “brigamos” uma única vez), não só a esquecera como me perdoara. Rebeldia da imaturidade, ele dizia. E estava certo! Daí a contrição da crônica e, mais tarde, o aprendizado de vida.

Para minha mãe, dediquei-lhe dois textos: “Ao entardecer”, em 2009, e “Dona Gelny”, por sua vez, no dia de sua partida, ambos publicadas nestas “Notas Dissonantes”.

Se a crônica a meu pai fora eivada de remorso e o imponderável desejo de voltar no tempo, para ela, minha mãe, mostrou, por sua vez, a leveza dos sentimentos e divertidas remembranças; mas a ambos – pai e mãe –, em vida, eu já lhes havia declarado meu inconteste amor.

Os afetos hão de ser sedimentados amiúde: um “eu te amo” a cada adormecer é a certeza de paz e mansuetude que mitiga as mágoas naturais do (com)viver; um telefonema ao filho distante para saber como foi o seu dia; até mesmo um e-mail para dizer das saudades.

Morre-se, sim, de amor (ou pela ausência deste), como a Guiomar do Didi, e como tantos homens e mulheres que, por não suportarem o vazio da partida, definham e murcham como flores de um estéril jardim. Feliz daqueles que vivenciaram e disseram como o disse Vinicius de Moraes, “assim, quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive/ Quem sabe a solidão, fim de quem ama/ Eu possa me dizer do amor que (tive):/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”.

Sim, porque como também cantou o Poetinha, “para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor”.

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