Escrever e dançar na noite estrelada. – Sergio Agra

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Foto: Sergio Agra

ESCREVER E DANÇAR NA NOITE ESTRELADA

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Com pensamento em Vincent van Gogh,
pintor holandês, que em vida jamais vendera um único quadro seu.

Alguns poucos amigos não tão distraídos me indagaram o quê havia de oculto acerca de um fato real nas cinco linhas de um conto breve que postei no Face book na terça-feira, 13:

— “A jovem convidou os amigos para o aniversário. Ninguém apareceu. Secou as lágrimas dizendo: — ‘Minha vida é maior que isso tudo!’ — E dançou só”.

DorisFelker, querida e zíngara amiga, agora radicada em Natal — Rio Grande do Norte (até quando, mesmo, eu não sei!) —, cumprimentou-me pelo “prodígio” de em 130 caracteres ter escrito um conto com todos os requisitos que este gênero literário exige: situação inicial, desenvolvimento e situação final, sem esquecer jamais os componentes, quer sejam, o conflito, a tensão e o final surpreendente. O conto traz em si não apenas a história aparente, sobretudo a história oculta. Esta fica a cargo do entendimento do leitor ante os “indícios” que a história aparente lhe oportuniza.

No caso da jovem — chamemo-la de Karen — que viu as comemorações de seus quinze anos sem a presença dos amigos convidados lembrou-me um admirável amigo, a quem me reservo o direito de chamá-lo El GranPayador, de invejável talento, poeta e contista, nativo da fronteira oeste deste Rio Grande.

Para o lançamento e noite de autógrafos de seu primeiro livro convidou amigos, colegas do banco, conhecidos e anônimos.

Apenas oito deles compareceram.

Sei muito bem qual fora o sentimento de El GranPayador naquela noite. Estimo o tamanho da comoção que invadiu o adolescente coraçãozinho de Karen e de tantos outros que sentiram na celebração do aniversário a ausência do afeto daqueles que se diziam amigos.

Como El GranPayador, amigo e fraterno irmão de atrevimentos literários, persistimos — birrentos e obstinados —em levar adiante as consequências das madrugadas indormidas ante nossas angústias, nossos sofreres, nossas amarguras, nossa indignação, contentamento, regozijo ou bom humor que Brígida, a deusa celta da inspiração, e seus travessos duendes impõem em horas impertinentes. Por isso, é coercitiva a nossa ida ao computador e através das redes sociais compartilharmos nossos sentimentos, nossas emoções com quem tem a generosidade de nos ler.

No dizer de Ariano Suassuna — autor de “O Auto da Compadecida”, “O Santo e a Porca”, “Farsa da Boia Preguiça” e dezenas de outros títulos —, “todo escritor é um mentiroso”. E não se resume apenas a isso. Até mesmo os plumitivos (escritores sem méritos) somos vaidosos e carentes dos comentários do leitor. A louvação ou o desaplauso é o pontapé na bunda que nos empurra para frente.

Sim, somos todos vaidosos e ao mesmo tempo carentes (a vaidade está para a carência como a maquiagem para as mulheres feias). Necessitamos desse elogio ou desaprovação de modo literal, à letra, muito mais do que um néscio emojique desobriga quem presumidamente leu nossa poesia, nossa crônica ou nosso conto a formular a lógica aristotélica: premissa, dedução e conclusão. A ausência da crítica, da capacidade de julgar e avaliar os corolários de nosso despudor literário assemelha-se a uma festa de aniversário vazia de convidados.

Ao perceber que nenhum convidado comparecera às comemorações de seus 15 anos, Karen borrou a maquiagem de tanto chorar. Depois, secou as lágrimas lançando ao Universo a decisão — “Eu sou maior do que isso tudo. Minha vida é maior que isso tudo”! — e desafiou-me, e a todos os poetas, sempiternos sonhadores, a segui-la. Descalços, sentimos ao primeiro pisar o calafrio provocado pela grama orvalhada.
E dançamos feitos ciganos na noite estrelada…

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