O Estuário das Paixões

Assim, foi com desconfiança que a vi passar pela terceira vez à minha frente. Observei-a com mais atenção: deveria ter uns treze, quatorze anos, não mais. Era bonitinha, loira, cabelos em cachos escapulindo do gorro de lã que fazia conjunto com o suéter. A saia era plissada e as meias de colegiais até os joelhos. Nunca a vira por ali.

O mais conhecido dos agregados de Machado de Assis se ali se encontrasse, certamente, me confidenciaria ao pé do ouvido, “Mira, ela tem olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. A cor dos olhos da menina, de fato, era de um verde como as profundezas das águas do oceano, e de uma força que arrastava para dentro.

Não parecia uma viajante; era mais provável que estivesse ali à espera de alguém que fosse chegar; ou então, como não era ali o lugar mais apropriado para isso, pois o ponto de desembarque do ônibus ficava na outra extremidade, talvez ela estivesse simplesmente esperando outra pessoa com quem marcara encontro na rodoviária, um ponto como qualquer outro. O fato de ser o lugar onde me encontrava um dos mais visíveis e menos movimentados da rodoviária – um banco no caminho para o guarda-volumes – me confirmou essa hipótese.

Assim, quando veio se aproximando um rapaz simpático, sem malas e sem ar de viajante, sorri ligeiramente por dentro, contente com a minha perspicácia de observador. Mas a garota, que estava parada a poucos passos de mim, olhando um ônibus que acabara de partir, não se moveu – e o rapaz passou direto.
Genial minha perspicácia!

– Você conhece? – escutei ela falar.

Surpreso, olhei para os lados: mas não havia mais ninguém ali, era comigo mesmo que ela estava falando.

– O quê? – devolvi-lhe a pergunta.

Ela estava meio de lado, a mão esquerda segurando a corrente que margeava o passeio, suspenso afrouxadamente em pequenas pilastras de concreto armado da altura de seus joelhos, colocadas em intervalos de dois metros, para evitar a saída de transeuntes para fora do passeio, lugar perigoso por onde transitavam os ônibus. Apontou para um que chegava: Santa Maria!

– Não, não conheço!

Com um sorriso tímido, ela veio andando devagar, jogando um pouco os pés, como se brincasse com eles. Perguntou se podia sentar ali. Acenei-lhe com um gesto afirmativo de cabeça. Ela se acomodou sobre o banco em posição de lótus.

– Tenho vontade de ir lá! – disse.

– Lá onde, Santa Maria?

Ela disse que sim com a cabeça.

Viajei com Françoise a Santa Maria. Fui seu par no Baile das Debutantes do Clube Caixeral. Eu frequentava o sobrado dos Moura Barreto. O casal – doutor Flávio e D. Alice – possuía duas filhas: Françoise e Ariadne. Doutor Flávio era uma figura cativante, gárrulo, sempre em paz com a vida, A mulher era reservada, fumante compulsiva e ansiosa em desvendar, entre as espirais de fumaça do seu cigarro, os passos noctívagos do magistrado. Na ampla sala de visitas, refestelados no sofá assistíamos, Françoise e eu, à última das novidades, a programação da TV Piratini.

Na telinha, o apresentador, com impostação de voz, anunciava o programa Varig em noite de gala.
Luzes apagadas, D. Alice na cozinha, assava um lombinho aqui, picando cebolas ali, e minhas mãos trêmulas e inseguras, como um piloto em um voo cego, percorriam, agora, as paragens ainda virginais de Françoise. A voz de Françoise era apenas um sussurro:

O que estás fazendo? – ela quis saber.

Aos poucos, recuperei a antiga confiança.

– Quero ver quantos palmos têm tuas pernas.

– Para!  Estás me fazendo cócegas. – dissimulada, ela afirmava não gostar.

– Imaginação tua, vê, eu não sinto nada, ó!

Assustada e, ao mesmo tempo, sentindo arrepios de prazer pelo corpo inteiro, ela conseguiu balbuciar:

– Chiii… tua calça está toda ”molhada”.

Françoise amava a noite, vivia-a intensamente. Ao meio-dia acordava, às duas horas fazia o desjejum e ceava perto da meia-noite. Olhos permanentemente congestionados. Dirigia feito doida, ultrapassava com sinal fechado, buzinava e dobrava à esquerda em locais proibidos, dizia palavrão. Enturmara-se com os socialites do Leopoldina Juvenil. O “barato”, nos festins privées, era consumir LSD, ácido lisérgico,  um alcaloide vegetal, cristalino, alucinógeno que, afirmavam, os levava ao “Olimpo”. Conheceu a conta bancária de Demétrio Berthé, namorado de uma amiga de clube. Tomou-o e aprovou-lhe, com louvor, a bilunga. Casaram. Descobriu-se traída. Na tarde invernal, num hotel à beira-mar, com o parceiro de tênis de Demétrio, devolveu-lhe a moeda. As madrugadas transfiguraram-se no oásis das amarguras de Françoise e os botequins nos palcos, nem sempre iluminados, das bebedeiras e dos escândalos que ela encenava. Certa feita, sequer alcançou o toalete. A dor lancinante, na altura do ventre, a desabou por sobre mesas e cadeiras.

Françoise, trinta e dois anos, separada, duas filhas adolescentes, fora compelida a morar com a mãe, então viúva. Dois anos antes, o desembargador Flávio, desgostoso com o amante, um nigeriano, lutador de catch que o abandonara para viver com um oboísta da Orquestra Sinfônica, empalou-se com a lança que decorava a garçonnière, na Rua da Praia, expelindo sangue no alvo carpete até morrer. D. Alice, que, até então, nunca se fizera ouvir, iniciou as impúberes netas nos segredos da alcova. Mais tarde, trouxe de Dom Pedrito duas viçosas sobrinhas, gêmeas de doze anos. Fez melhorias no sobrado, aumentou a adega de vinhos envelhecidos – herança do desembargador – e os lucros na algibeira. Selecionou a clientela, agora regalada por dadivosas ninfetas com seios túrgidos que sugeriam a polpa de uma romã.

A enfermeira apanha a pasta de cartolina e conduz Françoise ao gabinete do médico. Ele abre a pasta e analisa o conteúdo que cada envelope resguarda: tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas, Raio-X.

– C.A! – é a conclusão dada num tom de voz impessoal. – Só nos resta uma alternativa: extirpar útero e ovários!

O tráfego de automóveis na Radial Sul, àquela hora, é escasso, a cidade parece adormecida. Françoise no leito da UTI, assiste ao desfilar de sua vida, como um antigo filme em branco e preto”.

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