Réquiem para Porto Alegre que já foi demais – Sergio Agra

Conheci José Alberto Fogaça de Medeiros, o Professor Fogaça, no início da década de 1970, numa das salas de aulas do IPV (Instituto Pré-Vestibular), nos altos do Edifício Annes Dias. Fogaça ministrava Língua Portuguesa. Mais tarde ele seguiu a carreira política; foi deputado estadual, deputado federal (Relator adjunto da Assembleia Constituinte de 1988), senador da República, prefeito de Porto Alegre e padrinho dos Almôndegas* e do atrevido escrevinhador Sérgio Agra.

Em 1981 publiquei o livro de crônicas “Não Permita, Deus, Que Eu Morra”. Fora ele, José Fogaça, quem prefaciou aquela edição. Daí para diante, fortaleceram-se nossos laços de amizade. Em 2008 a apresentação de meu romance “Mar da Serenidade” também fora escrita pelo então prefeito municipal José Fogaça.

José Alberto Fogaça de Medeiros é um homem multiplicado: professor, político, escritor, compositor, enfim, de um ser com ligação visceral com a Cultura. É dele a suave e melódica canção que homenageia nossa Capital, “Porto Alegre é Demais”, que o povo elegeu como o hino afetivo da cidade.

Porém, meu caro Fogaça, o Centro Histórico desta Porto Alegre que apesar de inculta e bela, a um tempo, esplendor e sepultura, e mesmo assim a amamos al dila, é o cenário macabro de um filme de terror.

O prefeito Sebastião Mello, endeusando e cantando hosanas à nova Orla do Guaíba lembra o macabro episódio ocorrido no início da década de 1960, no Rio de Janeiro, conhecido como “Operação Mata-mendigos”. O acontecimento consistiu no extermínio de moradores de rua pela polícia, supostamente a mando do então governador carioca, Carlos Lacerda, a fim de mostrar aos turistas e estrangeiros somente as “belezas” daquela que chamam de “Cidade Maravilhosa”. Sebastião “Melonaro”, para amenizar a degradação daquel região central, “vende” o projeto de sua revitalização e promete esforço para entregar obras do Quadrilátero Central até o final deste ano, 2023, e o fim dos ambulantes após os trabalhos.

Salvo melhor juízo, é bem mais plausível a “revitalização” de uma múmia de 4.300 anos do que o Centro Histórico de Porto Alegre.

Por isso, padrinho José Fogaça, atraiçoando a licença poética concebida, e valendo-me da ironia do Menestrel Maldito** que há pouco nos deixou escrevo esta paródia em forma de réquiem àquela por quem um dia minha saudade foi demais, pois lá eu vivia em paz, na Porto Alegre que era demais…

Porto Alegre é que tem

Um jeito mortal.

É lá que os “Véios”, etc. e tal,

Nas manhãs de verão,
Esperando o “busão”
Pra passear no Mercado
Num bom ritual.

Porto Alegre me faz
Tão abscopal*.
Porto Alegre me dói,
Não diga a ninguém, Porto Alegre só tem,
Não leve a mal,
A sujeira é demais,
Era lá que eu vivia em paz

Quem dera eu pudesse
Ligar o rádio e ouvir
Uma boa notícia,
De poder ir e vir,

Andar pelos bares
Nas noites de abril
Sem haver, de repente,
Um assalto tardio.

Porto Alegre me faz
Tão intimidado,
Porto Alegre me dói,
Não diga a ninguém, Porto Alegre só tem
Pivete e marginal…
A saudade é demais,
Era lá que eu vivia em paz…

*Almôndegas – uma das bandas pioneiras em criar uma linguagem particular para a música pop gaúcha;

 **Menestrel Maldito – apelido dado por Vinicius de Morais a Juca Chaves;

 *abscopal – fora do escopo, ou fora do objetivo.

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